Sufjan Stevens- Carrie & Lowell

Artista: Sufjan Stevens
Álbum: Carrie & Lowell
Gravadora: Asthmatic Kitty
Lançamento: Março/ 2015

Sufjan Stevens é talvez um dos músicos mais versáteis da nossa atualidade, o artista consegue produzir em gêneros totalmente distintos- de música clássica para hip-hop, passando pelo seu folk e por experimentos sonoros, mais presente no antecessor The Age of Adz. Lógico que sempre surge uma curiosidade de qual ideia mirabolante sobre o que Stevens fará em seu próximo trabalho, mas ele nunca deixa de surpreender, e assim, voltado ao folk e escrevendo músicas altamente sensíveis e simples que Carrie & Lowell toma forma.

Para entender Carrie & Lowell, é necessário saber o contexto em que a obra fora escrita. Referências pessoais nas músicas de Stevens nunca foram novidade, o cantor sempre misturava referências de cultura  para dar uma outra forma e dimensão nas canções e álbuns, mas isto não acontece em Carrie & Lowell– o álbum gira em torno de sua mãe Carrie e o então padrasto de Stevens, Lowell (hoje amigo e diretor da gravador Asthmatic Kitty)  nas primeiras memórias de Sufjan. Carrie separou do pai de Sufjan quando este tinha um ano, e desde então nunca teve um bom relacionamento com a mãe ou com o pai, mesmo assim, a morte de Carrie em dezembro de 2012 afetou profundamente Sufjan, e um dos jeitos de se recuperar foi escrevendo este álbum. Segue a resenha faixa a faixa deste novo álbum de Sufjan Stevens.

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1. Death With Dignity// “What is that song you sing for the dead?”

A primeira faixa de Carrie & Lowell começa com uma referencia à Oregon, onde Sufjan passava seus verões com sua mãe e padastro. A referêcia é sobre Death With Dignity Death de 1994, em que as pessoas com doenças terminais podem escolher morrer com medicações letais. Com violão, Sufjan confessa que não sabe por onde começar, faz referências à infância e perdoa sua mãe.

2. Should Have Known Better// “I should have known better/ Nothing can be changed/ The past is still the past/ The bridge to nowhere”

Segunda canção de trabalho – com violão e voz e teclados com sons de sUFJAN, marca de Seven Swans, “Should Have Known Better” foi a segunda canção liberada por Stevens.  Ao recordar memórias da infância e falar de sua depressão após a perda, metaforicamente, o cantor explica que se arrepende de não ter contato com a mãe e da distância e a falta de não te-la quando cresceu. Tocante e honesto.

3. All of Me Wants All of You// “Now all of me thinks less of you”

Com um ritmo mais agitado e com um tema de letras que talvez foge de Carrie e foque mais na vida amorosa de Sufjan, “All of Me Wants All of You” traz referências de Oregon (Spencer’s Button) e mostra como é sofrer uma perda e aos poucos conseguir se recuperar. Algumas partes da canção é dúbio se Sufjan canta para Manelich ou sua mãe.

4. Drawn to the Blood//“I’m drawn to the blood/The flight of a one-wing dove/ How? How did this happen”

Violão, voz e referências bíblicas, Sufjan faz alusão ao sangue de Jesus, o profeta Elijah, Delila e até da deusa da fertilidade da cultura Anglo-Saxã. Há um pouco de ressentimento em como aconteceu seu passado e  sobre o afastamento de sua família, principalmente dos seus pais. A canção é difícil de decifrar, mas é bem tocante e suave.

5. Eugene//“What’s the point of singing songs/ If they never even hear you”

A canção mais curta do álbum, em tom calmo com banjo e voz, Sufjan conta de suas memórias de quando era criança com sua mãe e como gostaria de ficar perto dela. Há vários momentos de duplo sentido na música, ora de seu “pai” (refere-se ao Lowell, pai biológico ou pai espiritual), ora do público-alvo da canção e várias referências de infância em Eugene, onde Carrie morava com Lowell e onde Sufjan e os irmãos passavam o verão.

6. Fourth of July// “Make the most of your life, while it is rife/While it is light”

Com uma atmosfera pesada com somente  teclados e voz, a canção é sublime mas um pouco dark. As letras da canção é uma suposta conversa que Sufjan teve com sua mãe enquanto estava no hospital. Enquanto a mãe tranquiliza o cantor, Sufjan descreve imagens de sua mãe no hospital e quando foi dada a notícia da morte de uma forma super sutil com várias metáforas. Linda, sensível e tocante, e prepare os lenços…

7. The Only Thing//“Should I tear my eyes out now?/Everything I see returns to you somehow”

Melodia suave com violão, Sufjan confessa a dificuldade de lidar com a perda da mãe e com seus pensamentos auto-destrutivos, até mesmo de suicídio. Sufjan menciona esta fase na entrevista que deu para Pitchfork em que consumiu drogas e bebidas alcoólicas em excesso com a ideia de que deste jeito ficaria mais próximo da mãe. Em “The Only Thing” ele explica o que aconteceu neste período de sua vida.

8. Carrie & Lowell// “Carrie and Lowell/Such a long time ago

Título do álbum, a faixa “Carrie & Lowell”, volta ao banjo e usa referências da mitologia grega novamente. Fica dúbio se Sufjan fala de seu abuso de substâncias ou se é somente o uso de sua mãe, tudo mesclado com imagens de Oregon que remetem ás infâncias de quando passava seus verões com Lowell e Carrie.

9. John My Beloved// “So can we be friends, sweetly/Before the mystery ends?”

Som de ar condicionado e teclados e voz, a canção é bem confusa quanto às letras. Sufjan volta às referências bíblicas quanto à morte e a vida de Jesus e  à John- discípulo que Jesus amou, e até pedindo para que o proteja dos “fósseis do passado”. No entanto a letra é dúbia novamente: pode ser uma conversa entre Jesus, Sufjan e John, ou até Sufjan relembrando fatos de um relacionamento anterior. Musica marcante e melancólica.

10. No Shade in the Shadow of the Cross// “Like my mother/ Give wings to a stone/It’s no shade in the shadow of the cross

Em Fevereiro Stevens soltou esta música e assim tínhamos uma ideia de como seria o álbum Carrie & Lowell. Nesta canção, com banjo e voz, Sufjan mostra uma fase de Stevens teve que, ao achar que consumir drogas e bebidas e flertar com a morte através de uma “overdose” ou se auto-multilando seria uma forma de ficar mais próximo e íntimo de sua mãe, já que nunca teve tanto contato com ela. Vocais arrastados e ritmo pesado… mistura de arrependimento e lamento.

11. Blue Bucket of Gold// “My blue bucket of gold/ why don’t you like me?

Com som de ar condicionado, voz e teclados, Sufjan termina o álbum fazendo referência à lenda The Lost Blue Bucket Mine de Oregon e uma dúvida se a canção é para um amigo ou para Carrie. É mencionada a paixão por lendas do cantor quando o mesmo pede por ajuda. A canção é simples e fecha o álbum de modo delicado, já que as palavras não falaram muito, o som expressou de modo intenso no final o pesar.

Como de praxe, mesmo voltando para as raízes de Seven Swans com uma aparente simplicidade nos arranjos, Sufjan Stevens surpreende não só com a honestidade em que abre para falar de seus sentimentos para com sua mãe, passando pelo ressentimento de não tê-la ao seu lado quando era criança, pelo desespero ao descobrir que estava morta e ao perdão, como também na sonoridade e letras. A melancolia também transborda na melodia que muitas vezes ( principalmente no final das canções) se intensifica em sons em um sublime desconforto e  deixava por completar o que era transmitido nas letras. Quanto as palavras, Sufjan não só foi extremamente aberto e honesto quanto ao que sentiu e como lidou com a perda da mãe, mas continua a fazer alusões aos lugares que o marcou na infância ( a maioria em Eugene, mas todas em Oregon), às referências biblícas (super forte em “John, My Beloved”) e mitológicas (espalhadas por “John, My Beloved”, “The Only Thing, “The Bucket Gold” entre outras).

Este não é um álbum fácil de ouvir, é preciso segurar o choro com tanta sensibilidade e confissões verdadeiras vindas do cantor. O álbum leva o ouvinte a conhecer a intimidade e história de Stevens de um modo assustadoramente maravilhosa, e sim, eu senti um pouco da dor da perda de Carrie. Sufjan conseguiu mais uma obra-prima, explorando um dos mistérios da vida e sua própria experiência, suave no modo e forte, muito forte.

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