Silva- Vista Pro Mar

Inauguro a minha primeira resenha brasileira com um álbum que me acompanhou as duas últimas semanas. Decidi comprar o álbum físico e esperar um pouco para escrever a resenha com o disco em mãos, embora tenha dado boas estatísticas para as faixas disponibilizadas no youtube, onde o CD fora disponibilizado. Vista pro Mar, o segundo álbum de Silva, despontará, sem dúvida nenhuma, entre os melhores álbuns do ano. Com conceito marítimo, leve, mas sem perder a magia puxada do eletrônico e com alguns toques melancólicos resquícios do primeiro álbum Claridão, Silva fez um álbum um pouco mais alegre e que logo após da primeira ouvida cresce e amadurece, e nos faz curtir então essa “melancolia ensolarada”.

silva-vista

O clima leve teve origem quando a ideia do álbum surgiu em uma piscina, como explica o próprio Silva em um diário em seu site. Sem a atmosfera de tédio que inspirou o primeiro álbum,  e com aposta de usar mais instrumentos, mas sem deixar seu jeito genial de arranjos de programações eletrônicas, Silva encontrou o balanço ideal para fazer um álbum delicioso,  simples, que arranca sorrisos sinceros.  A busca de texturas, sons meio complexos mas sem deixar de ser delicado e com apelo pop são as principais características desse belo trabalho que tem análise faixa a faixa abaixo:

1. Vista Pro Mar“Eu sou de remar/ sou de insistir/ mesmo que sozinho”

A música de abertura, nome ao álbum, dá o tom do álbum tanto nas letras como na melodia: a serenidade da canção com os toques eletrônicos fofos, típico de Silva e letras com temas marítimos. No caso da primeira canção, o mar é uma metáfora de se jogar em algo e persistir até conseguir sucesso.  Assobios trazem leveza e um ar descontraído, mas o melhor estão nos metais que fecham a canção, que  entram na quebra do ritmo.

2. É Preciso Dizer“Eu flutuo nessa coisa do teu jeito”

O primeiro single escolhido de Vista pro Mar, começa com eletrônico e  sons marítimos numa fusão suave que cresce no arranjo, virando um eletropop delicado que explode em um refrão viciante. Não sei se é o clipe, ou o fato da produção de parte do disco ocorrer em Portugal, ou o uso da segunda pessoa do singular nas letras, mas há um toque português na canção, o que a deixa bem interessante.

3. Janeiro– “Quem te amou, te amou/ quem não te amou que bobeou”

Primeira canção liberada pelo músico, com atmosfera alegre e com letra de confissão- é notável o tom descontraído, fofo e excitação. Melodia e letra casam e passam o convite e expectativa, e independente da resposta, a felicidade está presente de qualquer jeito. Os metais no encerramento da canção dão um toque especial, que me lembraram(sei que to meio viajando) fogos de artifício.

4. Entardecer “Eu vi/ o sol fazer a curva/riscou/ tingiu de rosa o entardecer”

Uma das mais viciantes do álbum e ótima para escutar ao entardecer ( já experimentei e recomendo), a faixa tem um ritmo que parece te deixar em outra dimensão.  O mais surpreendente é o reggae na parte final da canção, capaz de te transportar para um mar e realmente ter uma “vista para o mar”  ( mesmo andando na rua, ou em um parque, ou em qualquer outro lugar).

5. Okinawa “O mar não é de calma/a calma é um naufrágio/ e é tudo um desencontro”

Com participação de Fernanda Takai nos vocais, oferecendo uma mistura delicada e deliciosa, “Okinawa” é talvez a letra mais melancólica do álbum- retratando a espera e o desespero em saber que aquela pessoa não se importa tanto quanto pensa. O clima da melodia também acompanha o pesar, mas de um modo sutil e leve, os sons das águas são mais ferozes,  o espaçamento nas batidas um pouco reticentes…uma belíssima canção.

6. Disco Novo “Eu trouxe um disco novo/ já é algum começo/ vamos, venha ouvir/ você precisa ouvir”

Mais dançante e com clima de anos 80, as letras tentam consertar uma relação que está por corda bamba, e nada melhor que algo novo como um disco para a renovação de uma fase. Pianos são a marca dessa música até a reviravolta no refrão, super dançante e cheio de esperança.

7. Universo “Chega perto/essa casa é fria/ mas não é vazia mais”

Dançante e apaixonante também relembrando influências da década de 80, a canção tem um refrão bom e viciante com efeitos que chamam a atenção. Teclados estão fortes nesta canção que retrata o universo de um casal. Simples e eficaz.

8. Volta“Que nós dois/não somos em vão/em vão não há beleza”

Começando meio devagar para desaguar em um ritmo mais agitado mas sem perder a linha de serenidade, com toques de violão e programações misturadas, o resultado  é bem interessante. Letras pedem a volta da tal pessoa com argumentos simples e certeiros, como a metáfora do sol, que sempre volta.

9. Ainda “Ainda toco e canto/ pra te conquistar”

Em tom confessional e totalmente diferente do resto do álbum,  tendo somente voz, violão e sons fofos de pássaros, Silva mostra um lado diferente, o que acontece também em Claridão com o hit “A Visita”, onde a ênfase está mais no ukulele e no violino. “Ainda” mostra um lado sensível e sincero, e que é possível sair um pouco do esperado pro disco e surpreender, sem perder o toque característico do artista e do conceito do álbum.

10. Capuba “Voltei pra te falar/ lembrei dessa beira/ dos dias sem hora”

Anos 80 também marcando influência na faixa, num som dançante gostoso, com sintetizadores bem marcados.  A letra faz referência ao nome de uma praia no Espirito Santo, talvez isso explique um certo tom nostálgico, em voltar à algum lugar e relembrar fatos marcantes.

11. Maré“O que é teu é no além-mar/não é preciso nem remar/já vai chegar”

“Maré” parece fechar o ciclo: retomando na letra a ideia lançada em “Vista Pro Mar” ( Eu sou de remar/ sou de insistir), Silva  afirma que deve alcançar seu lugar, no remar, lutando para conseguir. A melodia é tranquila, como um mar calmo, traz calma e serenidade, que te faz apertar o replay e conferir “Vista pro Mar” novamente e as outras canções que seguem.

 

Silva mostra um trabalho mais maduro, uma evolução natural de Claridão, com um ritmo mais ensolarado. Mesmo focando-se mais na melodia, ainda é presente os sons diferentes e inovadores, marca de Silva, junto com instrumentos, um som mais orgânico o que ajudou na leveza do álbum. Além de ter uma capa bem feita e icônica, retratando o conceito do disco fiel e criativamente. O que me chama a atenção não só neste álbum, como também em Claridão, é como Lúcio Silva assume tão bem  o papel de produtor, compositor e faz-tudo em um álbum. Embora em Vista Pro Mar mais pessoas tenham participado do projeto, Silva ainda mantém tudo ao alcance, mantendo o controle do que devera ser prooduzido. Ultimamente este fenômeno de descobrir talentos produzidos em quartos tem sido frequente, só mais uma evidência que música boa tem sido feita, mas não de fato divulgada. Silva pode ter saído do quarto e ganho o mundo, mas a qualidade persiste. Fico feliz em ouvir um disco assim, brasileiro e grande, capaz de transformar aquele dia melancólico um pouco mais solar e com uma vista imaginária para o mar…

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