Silva- Júpiter

Artista: SILVA
ÁlbumJúpiter
Gravadora: Slap
Lançamento: Novembro/ 2015

O capixaba Lúcio Silva de Souza, mais conhecido pelo sobrenome Silva, e pelo som misturando o melhor do eletropop com pitadas de música brasileira- lançou seu terceiro álbum Júpiter agora em novembro e estreia uma nova era mais pessoal  e intimista de sua carreira. O multi-instrumentalista há 4 anos lançou seu primeiro EP, e desde então tem trilhado uma carreira consagrada e reconhecida pela música que faz. Já mesmo em Claridão (2012), Silva mostra sua marca com seu som  com programações bem feitas e arranjos meticulosamente bem produzidos mas pesado tanto em temas e em som- o que muda para um tom mais leve no segundo álbum Vista Pro Mar (2014), que além de ser mais otimista traz até uma leveza para o som do cantor, fazendo um dos melhores sons, canções e álbum do ano.

Em um ano e meio depois, Silva mostra sua nova fase em Júpiter, que segundo o cantor é mais pessoal ( Júpiter é planeta regente do signo chinês (!) dele e a sinfonia favorita de Mozart – lembre-se que Silva se formou em violino clássico) além de ser uma proposta para o mundo de hoje (a Pasárgada de Silva). O processo de produção do álbum surgiu na vida na estrada entre quartos de hotéis, aeroportos e casa de amigos e quanto à sonoridade tende a ser mais minimalista, para dar mais ênfase na mensagem. Pois então, vamos visitar Júpiter agora com uma análise faixa a faixa:

 

jupiter-silva-2015

  1. Júpiter // “Júpiter pode ser, começar de novo/Se por lá não houver esse mesmo povo”

A faixa que introduz o álbum tem bastante energia dançante- logo para começar a mexer o corpo e esquecer dos problemas. A canção começa mais tradicional e toma força no refrão, com mais instrumentos e os sonzinhos eletrônicos características do cantor, detalhes de guitarra também aparecem ao longo. Porém a rima e até mesmo a voz de Silva parecem não casar com a canção em alguns momentos (“laranja” não rima com “política”:/ ). Apesar do fato que ainda  é um dos pontos altos do álbum, além de trazer barulhinhos super legais de astronautas tentando estabelecer comunicação.

2. Sufoco //“Desapego, não desamor/ Tem tanto jeito de amar alguém”

Começando com sons de respiração, bateria eletrônica e alguns sonzinhos eletrônicos com uma guitarra esperta em alguns momentos, o instrumental dá ritmo a melhor letra do álbum: como lidar com a liberdade no relacionamento e o jeito maduro que Silva encara em deixar ir um amor. O refrão concentra o melhor da canção, que te leva em um ritmo bom.

3. Eu Sempre Quis // “É como um planeta que habitamos livremente”

Primeiro single de Júpiter, a canção mostra de pronto esta nova fase de Silva, deixando de lado a paranoia de colocar os detalhes dos sons no lugar certo e ser mais minimalista- é o que vemos em “Eu Sempre Quis”– uma bateria eletrônica, guitarras e voz- tudo para dar mais atenção para a mensagem- que nada mais é sobre amor e sobre este Júpiter- lugar de escape para uma vida perfeita. A canção parece também um pouco prima de “Universo” de Vista Pro Mar.

4. Feliz e Ponto // “Eu quis tanto ter você/ Quando você não me quis/ e agora a gente é feliz e ponto”

Pegada R&B com um violão esperto é a faixa que mais se distancia do Silva que conhecemos. A mistura de MPB com o ritmo americano tem detalhes eletrônicos mas ainda lembra bastante muitas músicas com influência R&B, as letras também não fogem do que é abordado pelo gênero- amor sem ser respondido, mas com a mensagem positiva que no final o tempo cura e tudo está ok.

5.  Io – Instrumental *

Silva trazendo seus dois mundos juntos- o clássico com o eletrônico criando em um interlúdio com um ritmo genial- tanto para relaxar e dançar. Pena que é muito curto.

6. Sou Desse Jeito// “Das coisas todas preferi o amor/Eu preferi o amor e ser bem como sou”

A introdução com piano e sons eletrônicos e bateria eletrônica o instrumental é intenso para uma confissão de personalidade e autenticidade. Silva fala de como não ser perfeito e para seu “amor” o aceitá-lo. É uma das músicas com mais elementos sonoros do álbum e que também remete ao R&B, especialmente na introdução e do jeito que Silva canta.

7. Nas Horas // “A gente faz tudo ser real/ Eu e você noite a clarear”

Mais uma canção com vibe R&B, ritmo leve para criar um clima com uma introdução no início, Silva descreve nas letras uma noite e um amor.  Bateria e sons eletrônicos dominam a música inteira.

8. Se Ela Volta // “Se o nosso amor for mais que amizade/ Vou te ouvir abrir o portão”

Misturando um pouco do clássico com o eletrônico de um modo triunfal, a canção é um ótimo pop, com sons na medida certa e letras profundas. Silva ainda usa vários detalhes sonoros  mas o violino aparece de background. As letras falam da perda de um amor de maneira delicada e muito bonita. Entre as melhores faixas do álbum.

9. Marina // “Marina, morena/ Marina, você se pintou”

Silva desta vez faz uma excelente versão de Dorival Caymmi. “Marina” conta com os sonzinhos eletrônicos dando um ritmo alegre e misterioso que conflita com a letra da canção- conflitos de relacionamento. Uma roupagem diferente para a canção de Caymmi.

10. Deixa Eu Te Falar// “Nada muda a escolha que eu fiz/ No estante em que te vi de lá até aqui”

Batidas na bateria eletrônica começa e o piano e a voz de Silva  dão o tom até o refrão, com mais detalhes e um piano mais grave. As letras chamam mais a atenção – promessas de palavras certas ao amanhecer para despertar de manhã, cavalheirismo à todo o vapor e declarações de amor nas entrelinhas.

11. Notícias// “Quando eu chegar, não vou mandar notícias”

Canção mais parecida com o “Vista Pro Mar”, mais orgânica com a voz mais aconchegante e melódica de Silva. Puro contraste com as letras que mostra uma certa desilusão com  o “amor” de Silva, e uma fuga para “Júpiter”. Um dos pontos mais altos do álbum, por ser a melhor faixa e a explosão e intensidade sonora no final, como se fosse um foguete…

Talvez pelo nome do  Júpiter, que carrega tanto significado e metáforas por trás- eu esperei um álbum mais conceitual- usando o que o planeta tem a explorar. Nota-se que neste álbum Silva relata sobre suas experiências pessoais e do jeito que se sente nas várias fases do relacionamento: primeiro o encanto com a pessoa, os momentos vividos e o final da história (de modo fofo e modo rude on com “Se Ela Voltar” e em “Notícias” respectivamente) e ainda há Júpiter- o lugar idílico, a Pasárgada de Silva para escape de pano de fundo. Quanto à sonoridade, Silva tira os excessos da canção (que às vezes fazem falta) e mantém a principal sonoridade marca. Porém o flerte com R&B soou estranho em alguns momentos- é possível ver a marca de Silva mas muitas vezes remetia à alguma outra música do gênero, sons já conhecidos.

Júpiter é um bom álbum, mas a sonoridade cresce a partir da segunda ou terceira vez, especialmente para aqueles que ainda tem forte Claridão e Vista Pro Mar na cabeça. Silva experimentou e deixou mais sua personalidade à mostra, mas acredito que certos elementos como eletrônica – o que Silva domina excelentemente bem, e R&B novidade no som do músico- são complicados de incorporar e não cair no senso comum.O peso dos detalhes também faltou e deixa a dúvida de que sempre algo está errado, algo esperado que não está lá. Apesar dos pesares, Júpiter nos oferece grandes canções como “Júpiter”, “Se Ela Voltar”, “Notícias”, “Sufoco” que misturam letras  e melodias relativamente boas, mas não tão surpreendentes como encontradas nos seus dois primeiros álbuns.