San Fermin- Belong

Artista: San Fermin
Álbum: Belong
Gravadora: Downtown Records
Lançamento: Abril/2017

San Fermin mal teve um hiato em 2016, o que rendeu dois ótimos trabalhos paralelos dos vocalistas Allen Tate ( trabalho solo que contou com a colaboração em massa dos integrantes San Fermin) e Charlene Kaye ( que adotou Kaye como nome artístico e surpreendeu com clipes e canções no EP Honey) e já voltou em pleno Janeiro de 2017 com novas canções e, sim, mais um álbum. A banda que se intitula Baroque pop ganhou destaque pelos arranjos meticulosos de Ellis Ludwig Leone, que tem formação clássica e foi a mente por trás do instrumental  rebuscado e o som diferente, principalmente do primeiro álbum . Com dois álbuns na bagagem, algumas mudanças de integrantes, a banda mostrou diferentes facetas tanto na estreia San Fermin (2013), mais clássica e rebuscada, quanto em Jackrabbit (2015), mais acessível embora não perde em magia e complexidade. San Fermin então decidiu logo mostrar-se um pouco mais simples nesta terceira era.

Em Belong, a banda liberou “Open” com os vocais de Charlene Kaye como primeiro single e serve como introdução para entender o álbum. Assim como  as outras canções liberadas antes do lançamento, todas apresentam um instrumental e vocais  à princípio mais simples do que o que fora visto pela banda até então, as letras parecem ser mais diretas mas ainda carregam aquele tom inquieto, característico da banda desde o primeiro single “Sonsick”. Belong traz ainda mensagens sobre amizade e a colaboração ainda mais intensa dos integrantes da banda na produção do álbum (embora ainda muitas das canções ainda são escritas por Ellis Ludwig Leone). Nos aventuramos pelo som de Belong e deixamos nossa impressão faixa a faixa do terceiro álbum de San Fermin.

1. Open //“Open your mind/Let me in/Give me your mouth/Give me your skin”

A canção que abre o álbum é a chave para entender a principal  temática do álbum. Com uma atmosfera mais leve, mesmo contendo aqueles toques inquietantes (geralmente criado pelos detalhes instrumentais do saxofone e das batidas eletrônicas). Há um tom um pouco fantasmagórico, e a sensação de que sempre há aquela voz tentando nos convencer de fazer algo errado e que no íntimo não somos pessoas boas. Esta inquietação é o tema central do álbum.

2. Bride// “Roses in my hair/Dazzling in white/Dress me up in ribbons just to wake under the knife”

Seguindo com o tema de “Open”, Kaye dá voz aos pensamentos de uma noiva que sente tudo desmoronar logo antes do casamento: a confusão dos sentimentos , de saber que não terá uma vida perfeita, tão viva quanto as cores descritas. O instrumental é bem delicado com alguns nos versos com alguns detalhes que aguçam nossa intuição que algo está estranho e o refrão  mais dançante com tambores. Mais puxado pro pop e com bonitas sobreposições de vozes e uma base eletrônica bem consistente.

3. Oceanica// “Sea change into pain but also something rich and strange”

Com vocais de Allen Tate,  um instrumental mais tranquilo,  mas  com um interlúdio de saxofone bem presente a canção se amplifica com vários elementos e o mesmo saxofone no final da canção. A canção descreve uma morte no mar  e como o corpo encontra outras coisas interessantes na corrente marítima, assim como o instrumental faz o ouvinte sentir o mergulho e explorar o mar.

4. August // “When the voices come alive/In an August throb of light/I watch it die”

Vocais do Charlene Kaye em mais uma canção com um tema de morte, e um clima bem tranquilo e minimalista com um refrão um pouco mais dançante e com  batidas fortes. Apesar da atmosfera gentil, há uma inquietação, principalmente nas palavras que colocam ideias mórbidas na cabeça do eu-lírico na hora de dormir.

5. Better Companies // “Oh I wish I kept myself a little better company/Oh I try to put a good face on it/Someone better come for me”

Com mais uma introdução minimalista com um flerte com música eletrônica, a canção ganha corpo no refrão e começa a crescer mais a partir deste momento, com camadas mais orgânicas como piano, baixo e saxofone tanto no acompanhamento quanto em solos fenomenais. Quanto à mensagem da canção é muito simples: Tate lista as atividades que poderia fazer para cuidar mais de sí mesmo.

6. No Promises // “I won’t promise you if you follow me around/ I won’t let you down, I won’t let you down”

Com uma batida eletrônica  minimalista e a voz de Kaye incisiva, a melodia cresce com o tempo com alguns detalhes com saxofone e uma bateria no refrão, e deixando a canção bem mais complexa lá pelo final da canção. O tema gira em torno do fato da banda sempre estar em turnê e as reflexões de Ellis Ludwig Leone em saber que seus companheiros de estrada escolheram “desperdiçar” alguns de seus anos e fazer alguns sacrifícios em prol da banda.

7. Belong // “There’s a little piece of me that’s always somewhere else/But I’m right where I belong”

Com o vocal de Allen Tate e Kaye, um instrumental bem delicado e sentimental, a canção descreve os momentos de um casal e a inevitável partida, e a promessa que os dois pertencem um a outo. O instrumental é mais simples, mais minimalista com um refrão presente e um refrão mais robusto com um ótimo final com metais. A canção mais simples e romântica de San Fermin.

8.  Bones //“These are just the bones/Telling me what everyone knows/We are not alone in love”

A característica que talvez mais chame atenção e “Bones” é exatamente o vocal de Tate e Kaye com uma pitada de R&B, principalmente no refrão cativante que abre, preenche e fecha a canção. Quanto o instrumental, tudo parece muito minimalista, mas as pitadas de violino, saxofone, eletrônico casam bem e dão ainda mais riqueza e camadas para uma das melhores e mais tocantes canções de Belong.

9. Dead //“Little blonde ghost won’t let it go/Get your ribbons off my bed/ Ten red roses, oh no /I’d rather be dead”

Como uma continuação de “Bones” e a littlle blonde ghost (talvez uma metáfora para ansiedade) a canção também pode ser alguém tomado pela ansiedade. O instrumental da canção é mais agressivo e energético, com uma performance feroz de Kaye, uma guitarra e um saxofone rasgando logo no refrão. Os versos são construídos em camadas e podemos pegar justamente esse sentimento de ansiedade pelos elementos mínimos entre refrões e pela tensão da música.

10. Perfume // “And I can smell it in your perfume/Spread your heartache in the air”

Mais uma canção começando com um pouco de eletrônico e construindo pouco a pouco, e explodindo em cores e sons no refrão (que é altamente viciante), bateria, baixo e um solo de saxofone logo no meio da canção. As letras falam exatamente da evidente dor que a garota sente e como o sentimento se transpõe para o que ela passa. Uma canção poderosa não só pelo tema, mas também pelo arranjo que combinam bem a essência da banda em um pop.

11. Cairo// “Cairo come back home/Twenty-eight days of delirium/Three is a crowd and two is in love/But I can’t sleep alone”

Com uma atmosfera mais calma e até, digamos, um pouco desértica, “Cairo” é bem mais orgânica com piano,  batidas rítmicas e guitarras dando a atmosfera da canção, na segunda parte violinos e saxofones começam a dar um tom mais amedrontador que leva para um final mais denso com saxofones a mil. Tate lidera o vocal com Kaye nos backing vocals enquanto cantam sobre o tempo perdido no “deserto”, lidando com solidão, vozes da imaginação e delírio.

12. Palisades/ Storm //”There is a place/I believe/Where we could live/And never leave”

Um combo de duas canções em uma só, a primeira canção “Palisades” é introduzida com piano, bateria e voz a canção cresce até embarcar em “Storm”que  termina em um bonito instrumental com direito à solo de guitarra, saxofone e uma harpa que tira o com da intensidade para uma calmaria (que serve de interlúdio para a próxima canção).  Kaye em “Palisades” canta sobre um lugar idílico onde poderia viver com amigos  e experienciar a natureza e talvez pode ser uma alternativa da visão do personagem da garota em “Happiness Will Ruin This Place”.

13. Happiness Will Ruin This Place // “Oh it’s no surprise/I lost my way/ Happiness will ruin this place”

A canção que fecha o álbum traz uma história contada por Allen Tate,  em terceira pessoa, de um homem que é metade animal, metade humano e se vê apaixonado por uma menina. Começando com um violão e voz e introduzindo violinos até o personagem achar sua natureza e o som  abrir e prosseguir com um som agitado com um tom meio ameaçador no final (visto também em algumas canções de Jackrabbit).

 

Talvez a característica que mais chame atenção em Belong é a delicadeza das canções- mais calmas e leves, mesmo assim incluindo todos os instrumentos e complexidades da composição  nas canções. Muitas das canções de Belong, começam bem minimas com uma base eletrônica, voz, ou até um violão, piano e voz, para logo serem introduzidas instrumentos pouco a pouco e aumentar passo a passo, com a ajuda de uma bateira e baixo no refrão e atingir toda a complexidade no final da canção. Como era de esperar, na composição de Ellis Ludwig Leone, também aparecem alguns instrumentos musicais para adicionar o sentimento presente na canção: a aventura debaixo da água em “Oceanica” feita pelo saxofone, a harpa em “Open” e “Bride” que colocam a ansiedade em tona,  a agressividade em “Dead” com trombete e guitarra, característica essencial da banda.

Belong também é mais acessível que Jackrabbit e San Fermin– as canções são mais voltadas para o pop, com o flerte com alguns elementos eletrônicos e melodias mais radiofônicas. Algumas letras também são mais acessíveis: “Belong”e “Better Companies” são direto ao ponto enquanto algumas canções deve-se utilizar a imaginação como “Happiness Will Ruin This Place” , “Palisades/ Storm” que narram histórias. Algumas canções também estão interligadas em uma narrativas como “Bones” e “Dead”, ou até mesmo “Bride”e “Open” (ansiedade conecta as duas canções), porém como visto em Jackrabbit– pode até ter uma narrativa ao fundo, mas as canções são independentes para interpretação.

O terceiro registro de San Fermin pode, na primeira ouvida (ou pelos singles lançados), parecer bem simples e perder em algum elemento- aspecto deixado principalmente pela leveza das canções- mas as camadas aparecem pouco a pouco e os lados Bs do álbum trazem uma nova perspectiva para o álbum. Pode também parecer um Jackrabbit mais digerível- com uma leveza – mas Belong traz temas e propostas diferentes, misturando histórias com melodias em que a banda também arrisca mais, se expondo mais também. Pode não parecer tão complexo, mas a mesma magia da banda continua a tocar com canções e narrativas bem feitas.

 

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