Planetarium (Sufjan Stevens/ Nico Muhly/ Bryce Dessner/ James McAlister)

Artista: Sufjan Stevens/ Nico Muhly/ Bryce Dessner/ James McAlister
Álbum: Planetarium
Gravadora: 4AD
Lançamento:Junho/2017

Há alguns anos atrás, por volta de 2011 e 2012, o cantor Sufjan Stevens, o compositor clássico Nico Muhly , o guitarrista do The National Bryce Dessner e o percussionista James McAlister, juntaram-se para compor algo juntos e acabaram em fazer um projeto que contemplava o sistema solar (mais a lua e outros nomes celestiais). O projeto ganhou grandes proporções e o projeto ganhou uma mini turnê em 2012 ( é possível ver um show inteiro pelo Youtube). Apesar dos anos e dos projetos de cada integrante, todos arrumaram um tempo na agenda para gravar Planetarium, e finalmente o álbum saiu, mas desta vez, com um toque mais sofisticado na produção.

Logo ao verificar o tracklist, algumas novidades já saltam aos olhos: “Black Hole”,”Black Energy”, “Tides”, “Kuiper Belt” e “In The Beginning” são faixas extras incorporadas no projeto. Com o instrumental pensado em grupo, e letras feitas por Stevens, que sempre traz o mitológico e algumas referências pessoais nas estrelinhas, Planetarium também reflete na abundância da vida (tanto em nossa terra como no universo) e experimenta com eletrônico e música clássica. Escutamos o álbum e segue nossas impressões faixa a faixa:

 

1 Neptune// “Conserve me, strange waters/Come and obey me, strange waters”

A canção que abre  Planetarium é “Neptune”, Netuno, o último planeta do sistema solar e com mitologia de Poseidon, o rei das águas. A canção tem Sufjan nos vocais acompanhado por um piano, e um violino que abre para mais instrumentação, justamente na parte em que é mencionado as águas (Sufjan implorando para Poseidon). As letras são relacionadas ao amor, principalmente de elementos como confiança e contato físico, cheio de metáforas em água.

2 Jupiter// “Jupiter is the loleniest planet” 

“Jupiter” usa bateria eletrônica e experimenta bastante com sons e auto-tune ( e lembra um pouco o que Sufjan fez em The Age of Adz). Assim como o som é rico em camadas e em tempos, Jupiter traz a figura paterna tanto de Sufjan como dos humanos, e da mitologia (Jupiter como Deus Romano) e conta a história em três camadas de como a vida foi criada (na esfera do próprio Sufjan, religiosa, e da mitologia).

3 Halley’s Comet// *interlúdio*

Um interlúdio de cordas que se intensifica no final, “Halley’s comet ” tem somente 30 segundos e faz uma transição direta para a faixa “Venus”.

4 Venus // “Half shell/Half undressed lover of mine”

Venus, o planeta do amor, com várias referências de Afrodite, Sufjan mais uma vez escreve Letras de duplo sentido, ora relacionado à divindade, Afrodite (com referências à estátuas e até aquela famosa pintura) ora relacionado à sua experiência própria ( desta vez, o Summer Camp, onde Sufjan achou suas primeiras experiências amorosas). Quanto à canção, a percussão e os toques eletrônicos  minimalistas sempre ressaltam a voz sussurrada de Sufjan, junto com a orquestra que entra nos pontos altos da canção.

5 Uranus// “Cross me with your wildness/Snake-eyed warrior’s knife”

Urano, na mitologia grega, se casou com a Terra, teve filhos e foi castrado por Cronos (tempo), seu próprio filho.  Sufjan conta essa história e mais algumas curiosidades do planeta Urano ( como ter uma órbita diferente de outros planetas, ou de como sua raiva se aplica em seu super ventos em seu território). Já a canção, começa com flautas e desencadeia para um som mais minimalista com bateria eletrônica, com coro e um instrumental de alguns minutos  que fecha a canção.

6 Mars// “I am the god of war/ I reside in every creature/Dispose of the future/Or put away your sword”

“Mars” contempla Marte, o deus da Guerra. A canção sucede Urano na mesma melodia, mas se intensifica no instrumental, que traz tanto o eletrônico quanto a orquestra em uma união bonita e interessante (levando o ouvinte a uma exploração do universo). Sufjan canta em auto-tune, como um alienígena recebendo os terráqueos, seguindo de um instrumental. A canção encerra com Sufjan proclamando o oposto de guerra, os sentimentos de amor, paz e perdão. As letras abordam o futuro, a incerteza se terá ou não guerra, e o potencial bélico em cada um de nós, além de como podemos virar o jogo da guerra com os bons sentimentos no final da canção.

7 Black Energy// *Instrumental*

Canção instrumental bem atmosférico, lembrando um pouco as viagens de naves espaciais pelo Universo. Totalmente executado com orquestra, sem nenhum toque em eletrônico. (Lembra um pouco Star Wars 🙂 )

8 Sun// *Instrumental*

Outra canção em orquestra e instrumental, mais delicada e leve, com algumas nuances graves.

9 Tides// *Interlúdio*

“Tides” é uma canção de interlúdio, instrumental que começa bem leve (seguindo a canção “Sun”, e que cresce em intensidade, fazendo uma ótima transição para “Moon”

10 Moon// “As I’m about to enter your world/I give you light”

Canção começa com toques bem delicados em xilofone e em eletrônico, em uma melodia que em alguns momentos utiliza instrumentos irlandeses- a melodia termina em um lindo instrumental com alguns toques eletrônicos. As letras tratam-se de dois contos americanos com coelhos e a lua: a primeira história, no primeiro verso trata-se de um coelho que se jogou ao fogo e se ofereceu como comida e teve suas orelhas eternizadas em um desenho na lua; no segundo verso trata-se da história  de um coelho que queria carregar a lua, trabalho somente do pássaro Grou, ao assumir a direção, as pernas do coelho se alongaram e sangraram, ao tocar o Grou, criou uma marca vermelha características  destes pássaro.

11 Pluto// “Pluto, silly goose/Why did you hide/Behind covenants of shame?”

“Pluto” (Plutão) começa bem delicadamente com dedilhado de guitarra, com a voz bem atmosférica de Sufjan e logo depois de algumas estrofes, um lindo e expressivo instrumental e a canção começa a se construir levemente. As letras abordam tanto a mitologia (Plutão como Hades, um dos reis do submundo e morte), o fato do planeta ser colocado como planeta anão e toda a melancolia e tristeza que o planeta tem.

12 Kuiper Belt// *Instrumental*

Faixa instrumental começando toda animada com  vários barulhinhos eletrônicos até entrar em algo mais atmosférico pro final da canção.

13 Black Hole// *Interlúdio*

“Black Hole” é pequeno (somente 34 segundos), mas traz um peso e um barulho de perigo à caminho.

14 Saturn// “Melancholy creature/Paranoid secret/ Hypothetic victim of prediction/ I’ll consume the child that trails me”

Mais uma vez, juntando mitologia aos Planetas, Sufjan menciona Cronos (Saturno), um dos titãs e filho de Zeus que devorava seus filhos com medo que um deles o substituísse. As letras também mencionam passagens bíblicas, de famílias cozinhando seus filhos para sobreviver, ao poder de destruição de Saturno. Quanto à melodia, a canção é bem intensa, com bastante sintetizador, auto tune, e uma atmosfera mais metálica para uma canção bem dançante.

15 In The Beginning// *Interlúdio*

Um interlúdio bem suave no início e se intensifica  (com  algumas camadas) até desencadear em “Earth”.

16 Earth// “Run, mission, run/Before we arrive”

A canção mais longa do álbum ( 15:10) , é um tipo de “Impossible Soul” (ultima faixa de 25 minutos de The Age of Adz) de Planetarium. A canção passa por diversos estágios, de um começo calmo com orquestra à uma festa em eletrônico em “run, mission, run”, fechando em um tom mais quieto em uma voz sussurrada “The beauty of the earth/On my death bed” (A beleza da Terra/ Na hora da minha morte). As letras falam dos problemas mundanos da Terra, embora ainda exista inocência (não respeitada) por parte dela.

17 Mercury// “And I am faithful/All that I felt within my arms/And I am weightless/You ran off with it all”

A primeira música liberada do álbum e o primeiro planeta do sistema solar, partindo do sol, Sufjan aborda a comunicação de Mercúrio em seus versos e como tudo que pediu aos deuses foi traído pelo mensageiro. A canção é simples com um piano ao fundo e a voz ecoada de Sufjan até vir u instrumental bem bonito e suave que fecha o álbum.

 

O projeto Planetarium, em sí, não é uma novidade, já que a maioria das canções já eram conhecidas  pelos fãs dos integrantes. No entanto, é muito legal ver o projeto sendo disponibilizado para um público maior, e gravado e masterizado como um belo álbum, e com algumas novas canções também.

O instrumental tanto pela orquestra comandada por Nico Muhly, pelo peso das guitarras de Bryce Dessner, pela ótima percussão de James McAlister, pelos barulhinhos eletrônicos dos sintetizadores de Sufjan (lembrando um pouco o álbum The Age of Adz), faz o álbum uma experiência intensa e rica, não só por sentir uma viagem que poderia ser muito bem espacial, se fecharmos os olhos, mas de sentimentos e sensações que cada canção traz. Há serenidade nos instrumentais “In The Beginning”, “Sun” e “Tides”, mas uma certa confusão em “Jupiter” (e uma certa imposição  por ser um planeta tão cheio de simbolismo), a raiva de Saturno em “Saturn”, toda a delicadeza e “Moon”. Incrível como este time conseguiu passar as peculiaridades destes planetas em som.

O mesmo também acontece com as letras de Sufjan Stevens, que consegue trazer não só as características físicas de todos os planetas em suas palavras, mas também menciona a mitologia e os deuses representados pelos planetas. Em alguma canções como “Jupiter”, Sufjan consegue escrever uma canção em que pode ser lida em 3 esferas: religiosa, mitológica e pessoal, coisa que Sufjan sempre faz de vez em quando: misturar suas próprias experiências nas canções. Contos americanos conhecidos em “Moon” traz o que  a mitologia não traz, e traz mais um aspecto interessante cultural para o álbum

Planetarium é bem eclético, rico em sons e conteúdo. Não somente uma experiência para aprendermos mais sobre a via-láctea e o universo em si, mas uma experiência sensorial que nos transporta lá pro espaço e nos proporciona aprendizado também de mitologia. Álbuns assim são raros de se encontrar, e é por isso, pelo encontro de tanto talentos, que faz Planetarium ser um álbum tão especial.