Mitski- Be The Cowboy

Artista: Mitski
Álbum:Be The Cowboy
Gravadora: Dead Oceans
Lançamento: Agosto/2018

Mitski é uma daquelas artistas que chega de mansinho, sem muita propaganda ou atenção da mídia, mas quando os merecidos holofotes finalmente mostram o talento da cantora, conhecemos uma das melhores compositoras de nossa geração. Conhecemos a Mitski com Puberty 2, album lançado em 2016, e o quarto da carreira de Mitski que conta com Lush (2012), recheado de piano e voz, Retired From Sad, A New Career in Business (2013) que segue com ótimas canções, principalmente a Mitski bem ácida e certeira nas letras, mas ainda experimentando e achando seu som; em Bury Me at The Makeout Creek, lançado no final de 2014, que  a Mitski então se encontra- cheia de guitarras distorcidas e seus vocais únicos.

Em Be The Cowboy , Mitski continua com algumas de suas características: as canções ainda continuam curtas- há muitas guitarras e o jeitinho único de Mitski trazer sua voz angelical e confortante para gritos cheios de melancolia e angustia. Produzido por Patrick Hyland,  Mitski escreveu o álbum tendo a solidão como mote e também reconectar com seus sentimentos. Nós escutamos faixa a faixa de Be The Cowboy e segue então nossas impressões  a seguir:

1 Geyser// “Though I’m a geyser/Feel it bubbling from below/Hear it call, hear it call/Hear it call to me”

A primeira faixa divulgada, bem  dark no começo com órgão e a voz de Mitski- a canção se constrói pouco a pouco  até explodir pro final da canção com guitarras, bateria e um instrumental mais complexo. Quanto às letras-a primeira vista Mistki parece se declarar para um outro alguém, mas Mitski fala do relacionamento que tem consigo mesma, com a carreira e aquele diálogo interno se tudo vale a pena ou não. Bem poético, uma das faixas mais poderosas do álbum.

2 Why Didn’t You Stop Me?// “Why didn’t you stop me/And paint it over?”

Com uma bateria e batidas eletrônicas fazendo uma canção bem animada  terminando em uma explosão com direito à saxofone “Why Didn’t You Stop Me”  tem uma Mitski que ainda se apega ao último amor, se lembrando e se segurando nas pequenas coisas e empurrando responsabilidade para um ex, como uma forma de ajudá-la.

3 Old Friend// “Meet me at blue diner/I’ll take coffee and talk about nothing, baby”

Talvez um link pra canção anterior (ou não) Mitski descreve um velho amigo, bem provável ex, em que encontra secretamente pra relembrar dos tempos antigos, às vezes sem falar muito, mas pra reviver alguns sentimentos. A canção é uma balada com bons tecladinhos e uma guitarra um pouco mais discreta de Mitski.

4 A Pearl//“You’re growing tired of me/And all the things I don’t talk about”

Começando mansa com uma guitarra suave para explodir nos refrões com guitarra mais pesada e bateria mais presente- a canção cresce com um mai riffs de guitarra e o último refrão com um instrumental mais intenso com saxofones. A intensidade do instrumental está relacionada com as letras, principalmente quando Mitski menciona a pérola (Pearl) a metáfora dos problemas e pensamentos tóxicos que temos e não queremos dividir com o outro- o que pode prejudicar nosso relacionamento com outras pessoas.

5 Lonesome Love// “Why am I lonely for lonesome love?/Why am I lonely?

Com o ritmo de um violão bem pra cima  com uma instrumentação com alguns detalhes bem legais ( violinos e alguns detalhes no piano e guitarra) e gravada com os barulhos do estúdio, Mitski revela seu plano em rever um ex, se produz, mas acaba perdendo mais uma vez o jogo e confessa os sentimento de solidão no dia seguinte.

6 Remember My Name//“‘Cause I need somebody to remember my name/After all that I can do for them is done”

Guitarras cruas abrem a canção que cresce e encontra um bom instrumental até o refrão, já o segundo verso tem uma guitarra que relembra os anos 90. Com ótimas metáforas (I need something bigger than the sky/Hold it in my arms and know it’s mine/Just how many stars will I need to hang around me/To finally call it heaven?), Mitski pede por mais amor e por ser lembrada, imortalizada de algum jeito- or pela sua carreira ou talvez através de filhos. Um desejo que muitos tem, mas poucos admitem.

7 Me and My Husband// “I steal a few breaths from the world for a minute/ And then I’ll be nothing forever

Com um piano ditando o passo da canção com um pequeno acompanhamento de instrumentos de sopro reforçando a magia da canção. Já nas letras, um pouco irônicas, Mitski fala tanto da brevidade da vida, quanto ao fato de compartilhar a vida com outra pessoa, mesmo que alguns relacionamentos são meramente superficiais, e que mesmo assim, há um tipo de amor!

8 Come Into The Water//“But would you tell me if you want me?/’Cause I can’t move until you show me”

Balada bem suave com percussão espaçada e um pouco de piano  e voz quase sussurrada de Mitski,  a cantora desabafa bem honestamente sobre  o fato de um cara ser sincero e entrar ou não em um relacionamento com ela. Simples, direto e bem bem suave.

9 Nobody//”My God, I’m so lonely/So I open the window/To hear sounds of people/To hear sounds of people”

Segundo single que Mitski lançou com um clipe bem criativo tem o instrumental bem animado com um piano e algumas camadas eletrônicas e um refrão bem pra cima que contrasta muito com a confissão de solidão que Mitski faz na letra da canção, A batida eletrônica parece ser uma saída sábia para a solidão tanto física e psicológica que Mitski sente.

10 Pink In the Night// “I glow pink in the night in my room/I’ve been blossoming alone over you”

Mais uma canção que começa com uma atmosfera densa, que começa a se construir de uma forma bem minimalista  e cheia de detalhes que explodem  lá pelo final da canção. As letras sobre se dar conta e curtir o processo de se apaixonar por alguém é feita com metáforas bem legais ( I’ve been blossoming alone all over you) que dão mais charme para a canção.

11 A Horse  Named Cold Air// “A lake with no fish/Is the heart of a horse/Named Cold Air/ Who, when young”

Balada bem minimalista com piano e voz, transbordando bastante emoção pela interpretação de Mitski. Em dois versos Mitski usa a metáfora do cavalo com coração vazio que outrora era animado para passar para o ouvinte o que a maturidade traz- contemplação e até mesmo um pouco de coração vazio

12 Washing Machine Heart//“Toss your dirty shoes in my washing machine heart”

Simulando uma  batida de de máquina de lavarcom a melodia com bastante ajuda de um sintetizador , a canção é bem animada e bem interessante que contrasta bastante com a voz suave que Mitski usa na canção. Em uma ótima metáfora, Mitski pede que o amado coloque seus “sapatos sujos na máquina de lavar de seu coração”, não só resolver os problemas, mas torná-los também íntimos para si.

13 Blue Light//“Out there I’m a sharp knife/Are you that blue light?”

Começando de uma forma bem agitada, a canção soa mais aérea e onírica quando Mitski menciona a “Blue light” como se estivesse em um mundo paralelo (apesar que as batidas do mundo normal ainda soam distantes) metáfora para enlouquecer??…talvez sim!

14 Two Slow Dancers// “We’re just two slow dancers, last ones out

A balada que fecha o álbum é bem delicada e melancólica com um piano e voz e vários detalhes que dão uma interpretação extra para a canção. As letras podem ser interpretadas como uma volta no tempo, relembrando os tempos de juventude e como o amor era naquela época e como a magia se quebrou e o casal está tentando recuperar pelo menos a lembrança do tempo vivido. Bem tocante e sensível, um dos pontos altos do álbum.

 

Uma das características mais notáveis de Be The Cowboy é o fato das canções serem bem curtas,  beirando um minuto e meio a dois minutos e meio, algumas das 14 faixas são bem compactas e diretas, tanto no instrumental quanto nos versos, o que em traz a sensação em alguns momentos que a faixa acabou abruptamente, ou deixando o ouvinte especulando como seria ter uma continuação para a música. Flertando com alguns estilos musicais como eletrônico, rock com bastante guitarras destorcidas e até um pouco de country, Mitski consegue fazer bem as transições entre as músicas além do fato de muitas das canções terem temas que conversam entre si.

As letras de Mitski são um dos pontos altos do álbum. Honesta em graus pouco vistos atualmente- Mitski fala sobre a sua solidão, do relacionamento que tem consigo mesmo e faz observações sobre o amor- sendo casamentos, pensamentos e encontros com parceiros anteriores, e o clássico relacionamento e os possíveis problemas que casais enfrentam os objetos das canções. Muitas vezes bem diretas, Mitski também é capaz de colocar belas metáforas e imagens que surpreendem o ouvinte ( como exemplo deixamos “A Horse Named Cold Air”).

Embora não seja muito convencional com as músicas curtas e a multiplicidade de estilos, Be The Cowboy é um álbum  bem rico  não só no instrumental e na interpretação da cantora nas canções, mas também no conteúdo das letras que Mitski passa de forma tão sincera, direta sem perder poesia. Com várias surpresas sonoras e vários momentos para refletir, Be The Cowboy é um álbum forte, reforçando o talento da garota  e fazendo um dos álbuns mais interessantes do ano.