Laura Marling- Semper Femina

Artista: Laura Marling
Álbum: Semper Femina
Gravadora: More Alarming Records
Lançamento: Março/ 2017

Laura Marling pode ter apenas 27 anos, mas a cantora folk já é considerada um dos melhores talentos desta geração- não só pelas habilidades que apresenta em seu violão (que em alguns momentos até flerta com a guitarra espanhola) mas também pelo conteúdo de suas letras. Desde o primeiro álbum, Alas, I Cannot Swim (2008), suas palavras já apresentavam certa profundidade quanto a escrita sobre relações e sentimentos e em I Speak Because I Can (2010), Marling começa a explorar o universo feminino, o que reflete nos trabalhos posteriores da cantora. Seu quinto e último álbum Short Movie (2014) a cantora explorou um pouco de sua espiritualidade e incrementou seu som com algumas guitarras elétricas, além de ter uma grande influência do cinema.

O sexto álbum de Laura Marling foi inspirada em um ano sabático que Marling foi ao Estados Unidos e virou uma  instrutora de Yoga( não muito bem sucedida); e dentre os acontecimentos deste ano, onde encontrou alguns amigos e se viu desconectada- ela se baseia nas amizades e amigas americanas e se aprofunda na experiência feminina de “assistir-se a ser olhada”, sendo “musas” do mundo masculino, o sentimento de ser incompreendida e admirada ao mesmo tempo. Além disso, Marling tenta trabalhar como se vê como mulher e explora a relação de amizade e intimidade entre mulheres (ela acredita que em todo tipo de amizade, você se apaixona pelo seu amigo). O título vem de uma frase de  Virgílio: “varium et mutabile semper femina” (varia e muda, sempre mulher) e assim, adentramos no retrato deste mundo feminino apresentado por Marling, faixa a faixa:

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1. Soothing// “I need soothing/My lips aren’t moving/My God is brooding”

A primeira canção e single de Semper Femina, “Soothing” apresenta uma atmosfera leve ao mesmo tempo intensa com uma produção mais minimalista com uma percussão marcante e violão, além da belíssima interpretação da canção por Marling. A canção tem um refrão com um instrumental mais elaborado que dá ainda mais tensão para as palavras da canção, que trabalham a volta de um antigo conhecido e sua resposta negativa e sentimentos quanto suas necessidades sexuais.

2. The Valley// “She sings in the valley in the morning/Many a morning I have woke”

Com violão em dedilhado e vocais todos com um backing vocal em um instrumental que cresce com o passar da canção, “The Valley” parece uma resposta do “wanderer” visto  em “Soothing”, que descreve a garota que canta no topo de um vale e confessa sua admiração pela menina (canção que tem um ponto de vista que parece ser masculino) .

3. Wild Fire// “I know your mama’s kinda sad/ and your papa’s kinda mean”

A segunda canção liberada do projeto e com um atmosfera que lembra Bob Dylan, com um violão ora espaçado e um vocal quase falado bem rápido nos versos e uma ponte e refrão bem melódico, a canção é deliciosamente bem produzida com seus pequenos detalhes instrumentais e com o vocal de Marling. As letras  tocam um dos motes do álbum:  Uma das melhores faixas do álbum.

4. Don’t Pass Me By// “Please don’t pass me by/If I’m walking but I don’t know why/I can’t get you off of my mind/Can you love me if I put up a fight?”

Com arranjos diferentes, com guitarras elétricas e uma bateria eletrônica, a canção cresce  no refrão  com vários instrumentos entrando em específicas partes da canção. Quanto às letras, que são um pouco dúbias, sobre um relacionamento que desmanchou e as canções que podem se tornar outras, assim como o novo relacionamento. Uma atmosfera melancólica com um toque de Arctic Monkeys.

5. Always This Way// “It’s so hard to say/”Is it always this way?”/Must every heart break/ Like a wave on the bay”

Com um instrumental bem calmo, mas bem detalhado com violinos e violões e com ênfase para o instrumental bem bonito em violão que encerra a música. Esta é uma das canções mais pessoais de Marling que reflete o quanto fez na sua vida e o vazio que sente quando sua musa vai embora.

6. Wild Once// “But I was wild once and I can’t forget it /I was wild, chasing stones”

Mais uma melodia simples a princípio que toma corpo com a presença de cordas (violinos são um espetáculo com o dedilhado e toque de piano) em uma atmosfera bem leve guiada pela voz melódica de Marling. As letras são bem crípticas e comentam o fato de ser “wild” (selvagem- também pode ser visto como inocente ou puro) outrora e agora conseguir ver outras pessoas assim, mas sabendo que isso mudou para ela.

7. Next Time// “It feels like a long time since I was free”

Um dos singles do álbum, que veio à tona com um clipe cheio de referências, “Next Time” começa com um ritmo hipnotizante em seu violão e uma delicada percussão, pra então ganhar mais detalhes e corpo na ponte com a participação de cordas. O ponto alto da canção fica no instrumental, dedilhado que desce de tom assim como o apoio da canção. Quanto às palavras, Laura fala de uma outra vez que se encontrará com esta garota, que abriu seus olhos e sentidos  embora no fundo saiba que talvez possa não ter uma próxima vez.

8. Nouel// “I do well to serve Nouel/My only guiding star/Fickle and changeable/Semper femina”

Nouel é inspirada em uma mulher real, amiga de Laura Marling, e segundo a mesma, ela é sua musa já que em sua opinião, a garota é a definição de ser “feminina”. Já a canção, bem singela, contando somente com o violão e voz, a canção mostra todos as habilidades no violão da cantora enquanto narra sua devoção e admiração  à Nouel, citando e traduzindo Virgílio (“varium et mutabile semper femina”) e afirmando que uma mulher sempre pode mudar e ter o poder de ser quem quiser e sempre encantar.

9. Nothing, Not Nearly// “I won’t forget the late September/Where we danced among the midnight embers/But it’s going like a half-remembered dream”

A canção que fecha o álbum tem guitarras, violão percussão e é irmã de “Wild Fire” com vocais corridos e rápidos e um belo instrumental no meio da canção (com guitarras à todo vapor). Marling fala de desencontros, com metáforas de direções, lugares, natureza , entre ela e um amor e termina com um “Love waits for no one”(o amor não espera por ninguém) no final

É sempre de esperar que Laura Marling demostre uma evolução tanto  em suas habilidades com seu violão, quanto seus temas sempre minuciosamente bem trabalhados, e em Semper Femina, Marling não desaponta. Quanto ao som, Marling  abusa de bons dedilhados, casando muito bem com o ritmo, a maioria das canções apresentam cordas como violino ou cello, que trazem ora suavidade ou profundidade e um clima mais tenso para a canção, guitarras são usadas com destreza em “Nothing Not Nearly” e “Don’t Pass Me By”, algo reminiscente de Short Movie (2015). Todo o instrumental feito bem delicadamente com ênfase nos sentimentos e pensamentos que Laura quer passar. Algumas das canções foram co-escritas com Blake Mills, que também produziu o álbum com Marling.

Sua viagem pelo mundo feminino é propositalmente dúbia para os ouvintes, já que muitas vezes a musa de Marling pode também ser vista como uma amante (“The Valley”, “Nouel”, “Wild Fire”) e enfatiza a admiração  em algumas canções, assim como trabalha o sentimento de perda ( “Nothing, Not Nearly”). Marling sempre consegue passar sua sensibilidade em sua canções, porém  em Semper Femina as letras tendem a ser mais acessíveis e claras comparando-se à I Speak Because I Can, onde também há canções do universo feminino.

Apesar de demonstrar que consegue fazer um álbum cada vez mais complexo a cada vez que se propõe a , neste álbum  destacam-se  o tema, a complexidade de seu violão e os arranjos que colocam a suavidade ou o peso nos lugares necessários. Laura consegue explorar bem o mundo feminino com uma delicadeza e sensibilidade que poucos conseguem abordar e ainda assim suas canções parecem mais acessíveis visando os trabalhos anteriores. Mais que uma imersão, Semper Femina mostra a versatilidade de Marling, que pode sempre mudar (fickle and changeable) mas que oferece sempre um novo desafio e desta vez nos deu uma das melhores obras de sua carreira.