Jay Vaquer- Ecos do Acaso E Casos de Caos

Artista: Jay Vaquer
Álbum: Ecos do Acaso E Casos de Caos
Gravadora: Independente
Lançamento: Maio/2018

Jay Vaquer está na estrada desde meados dos anos 2000, e desde então tem mostrado um trabalho intrigante não só com canções e álbuns mas também com vídeos que ficaram bastante na memória do pessoal que assistiu MTV nos anos 2000s. Tendo no currículo  seis álbuns de estúdio, sendo o último de inéditas  Canções de Exílio (2016), um álbum ao vivo- o animadíssimo Alive in Brazil  (2009) e La Guapa Payola (2017) com os maiores sucessos e versões de suas músicas e covers,  Jay Vaquer então lançou mais um álbum autoral para a coleção, e para a alegria tanto da sua fã- base e da cena brasileira de rock pop.

Com dez novas canções tiradas do musical que Jay vem trabalhando há um tempo, de nome, mas em um contexto específico para o álbum, e produção do mestre Moogie Canazio no EastWest Studios,  Ecos do Acaso e Casos de Caos  promete o som rock pop surpreendente além de várias surpresas a cada ouvida, com referências, Easter Eggs, trocadilhos espertos em letras tudo embalado em um som com bastante esmero e cuidado.  Pois então,  escutamos Ecos do Acaso e Casos do Caos e analisamos faixa a faixa mais um trabalho de Jay Vaquer:

1 Despas de Deux// “Olha quem chegou sem nos avisar/ Nossa grande amiga, a solidão”

Começando com ótimos riffs de guitarras e com um rock delicioso, e um instrumental muito bem detalhado e coeso, e um refrão bem contagiante com uma guitarra bem legal no background. Quanto às letras, Jay narra a história de uma garota que destrói tudo por aí e tem segredos profundos, e que é apresentada como a solidão de uma personagem. Com uma ideia bem sacada, a solidão te chama pra dançar num pas de deux- passo de dança balé) em que os dançarinos fazem o mesmo movimento.

2 Fosse ( O Dedo e o  Gatilho)// “Sigo pelo sonho até descobrir quem sou/ Quem é você?”

Em um tom mais calmo mas com uma atmosfera pesada com guitarras roubando a cena tanto  entre as estrofes trazendo tensão, além de construir a canção para o clímax, na parte que quase final da canção com vozes sobrepostas em um coral que explode a canção. As letras sobre incerteza e insegurança e um provável acontecimento fatal.

3 Favas Contadas//“Quando imaginei um curso pra desaprender o que me fazia mal/ Imediatamente percebi que o percurso era longo”

Em um som com mais guitarras abrindo o álbum em um som pop bem ritmada com guitarras destorcidas no background, e com um ótimo solo de guitarra como recheio da canção. Letras sobre tentar se encontrar  e perder-se em metáforas e comparações à contos de fadas que não estão na realidade.

4 Missa/2//“Tantas escolhas sem escolha/ Alheias à minha vontade”

Primeira canção mais com cara de balada com uma veia até um pouco “gospel” (os vocais dando uma tensão especial com os “ooooooh noooooooooo” e nos versos finais da canção, que dão o mote principal para a canção). Falando sobre esforço e desejos sobre um lugar mais “humano” e justo de se viver, a canção pode te pegar em algumas frases e intensificada pela melodia da canção.

5 Ecos do Acaso e Casos do Caos//“Escuto o lado esquerdo do peito/ Feito quem já desistiu de entender a razão”

A canção que dá nome ao álbum começa com uma guitarra bem delicada, assim como os vocais principalmente do refrão que contam com o nome da canção. A canção é quase uma balada com uma bateria bem presente e ótimos backing vocals embalando letras sobre a monotonia e o fato que pouca coisa pode certamente estar em nosso poder.

6 Cada Cadáver//“Cadáver/ Cada um verá/ Cada um será, virará/ Vai virar cadáver, olha lá”

Com uma aliteração bem legal sobre um dos acontecimentos mais óbvios e aterrorizantes da humanidade, não importando o quão importante você é, “Cada Cadáver” aborda a morte de uma forma bem natural e até engraçada. O instrumental dá uma certa tensão pra canção, mas deixando a canção mais agitadinha descrevendo o fatídico fim de todos os humanos.  Horas que parece ser a morte cantando…(Dona Morte mode on)

7 Tona//“Quando emerge um turbilhão voraz no mar da serenidade fake”

Descrevendo aquelas pessoas super seguras de sí mostrando aquela vida linda e maravilhosa, mostrando alinhamento e positividade à tona, mas não conseguindo escapar da realidade antes de dormir, Jay consegue embalar a mensagem em uma canção agitada com bons guitarras e vocais rápidos. Um dos  destaques desta canção é um baita riff de guitarra quase que encerram a canção e os vocais intensificando a loucura na cabeça da garota!

8 Restante//“Meu mundo quis descer/ Cansou, parou/ E se mandou daqui”

Mais uma balada do álbum, em um som bem delicado, mas ainda com guitarras presentes além de um vocal bem trabalhado de Jay que retrata nas letras aquele sentimento  de desistir do mundo e voltar às suas projeções de  mundo ( ou de um futuro?) e ficar naquele mundo que nem sempre é tão benéfico.

9 Abrigo//“Não sou a lombriga que a sua barriga abriga/ Ninguém me obriga a entrar numa briga”

Uma das canções agitadas do álbum tem Jay cantando em um tom mais grave e com um refrão bem explosivo com uma das melhores expressões do português ( Vá se catar/ Vá catar coquinho pra lá). Letras falam sobre religião com metáforas bem inteligentes e interessantes e com um pouco de ironia.

10 Questão de Tempo//“O tempo parou/ Não vejo mais ninguém/ Tudo que imaginei é ainda melhor”

A balada que fecha o álbum tem como tema central o amor, e finalmente encontrar aquela pessoal especial e todas as boas expectativas de uma nova vida. Com um arranjo bem delicado e vocais bem esmerados (especialmente nos backing vocals),  Jay oferece mais uma canção  sincera, bonita e tocante- fechando com chave de ouro o álbum.

 

Uma das características interessantes de Ecos do Acaso e Casos de Caos,  é o fato de que todas as canções foram tiradas do musical em que Jay Vaquer está trabalhando. De um total de 40 canções, 10 foram escolhidas para compor o álbum e, mesmo assim, as canções conseguem sim ter personalidade e mensagem que funcionam também fora do contexto do enredo do musical e ainda ter a identidade do Jay Vaquer. Porém uma brincadeira bem legal a se fazer no álbum é tentar descobrir os personagens e os conflitos vividos pelos temas da canção e pelo timbre de voz que Jay usa nas músicas.

Em termos de letras e assuntos, Jay mais uma vez não decepciona- focando em temas de religião, amor e também alguns assuntos um pouco mais pesados como suicídio e os turbilhões de projetar uma vida perfeita para a sociedade e viver um inferno de infelicidade internamente,  o cantor  ainda  impõe interpretação e escreve com uma das suas marcas- as aliterações impecáveis ( “o fato que ele fita a foto do feto” em “Abrigo” como um dos exemplos majestosos) e conseguindo passar ironias, sentimentos e impressões com pouquíssimas palavras.

No campo do som, explorando bastante as guitarras tanto em riffs geniais quanto em detalhes mais minimalistas em canções “mais tranquilas” , com comando de Rafael Moreira, Jay mantém um approach mais rock and roll  pro álbum cheio de energia das guitarras e com um time de peso como Jamie Muhoberac-tecladista que já tocou com The Rolling Stones e Pet Shop Boys, bateria de Jamie Wollan- baterista do Tears for Fears, e baixo de Sean Hurley.

Ecos do Acaso e Casos de Caos pode à princípio soar um pouco simples que os trabalhos anteriores de Jay- ele é mais  direto e bem coeso musicalmente, mas a cada escutada, há sempre aquela descoberta, aquela palavra exata em  que o significado toma outro rumo ou aquele som que não tínhamos percebido antes. Sem perder a crítica, a ironia, as letras bem pensadas e a identidade sonora, Jay mostra mais uma vez a qualidade do seu trabalho em um álbum intrigante e bem divertido de ouvir, sem  deixar de te instigar com pulgas atrás da orelha de incertezas da vida.