Jay Vaquer- Canções de Exílio

Artista: Jay Vaquer
Álbum: Canções de Exílio
Gravadora: Sony Music
Lançamento: Maio/2016

Talvez poucos lembram, mas há 10 anos atrás Jay Vaquer colhia os frutos do disco Você  Não Me Conhece (2005): clipes estavam passando na MTV, Jay divulgava sua música em rádios e programas de televisão, e shows estavam bombando para o artista. Tudo merecidamente, Jay desde o primeiro álbum Nem Tão São (2000) faz música pop para pensar, sem deixar a sofisticação de sua música para trás, assim como os vídeos, todos muito criativos e algumas com críticas pesadas (Lembre de “A Miragem” e  “Cotidiano de Um Casal Feliz“). Porém, logo depois do álbum Formidável Mundo Cão (2007), Jay deu uma sumida, e sem gravadora, na raça mesmo, lançou UmbigoBunker?! (2011), que foi indicado até a um Grammy pela produção de Moogie Canazio mas nenhum reconhecimento do cenário musical. Jay então batalhava shows e um espaço decente para mostrar seu trabalho…até que veio uma luz em 2015 com um contrato com a Sony, e mais um cd para a coleção.

Canções de Exílio, vem sim, com um conceito- a capa com Jay com estas pinturas que redefinem as feições de seu rosto (obra da maquiadora Sabrina Sanm e do fotógrafo, Renato Pagliatti) fazendo dele um novo personagem para este álbum: Dominus Prscriptu, ou o Senhor Exilado. A produção e mixagem do álbum tem a mesma autoria  do álbum anterior, com Moogie Canazio- além da participação de Lucas Silveira (Fresno) em algumas programações. Pois bem, a maioria destas canções podem ser interpretadas como o ponto de vista deste personagem, que de um “Exílio”, mesmo inserido na sociedade, consegue ver e julgar o nosso comportamento. Confira a resenha faixa a faixa de Canções de Exílio a seguir:

capa-CDE

 

1.Quantos Tantos//“Muito mais importante exibir a vida que viver”

Com guitarras e voz abrindo o disco, para logo vir um ótimo rock-pop bem típico de Jay (atenção para o riff de guitarra no refrão); as letras de “Quantos Tantos” falam exatamente da cultura “Selfie” que estamos agora dentre Instagrams e Snapchats, o ctrl+c ctrl+v de frases soltas de autores famosos que “traduzem” os sentimentos- além de todas as edições e mentiras que vemos todos os dias passando pelas nossas timelines.

2.Tudo Que Não Era Esgoto// “Tudo que não era esgoto agora fedia”

Mais uma canção cheia de crítica forte, Jay faz uma metáfora com esgoto que contamina um bairro e depois cidade e país. A metáfora do esgoto pode ser lida de várias maneiras, mas sempre com uma conotação real e não agradável. A voz de Jay sussurrada parece o esgoto tomando conta do lugar, numa espreita, de fininho, assim como o arranjo mais suave, mas tendo aquela tensão das palavras. Baita música!

3.Canção do Exílio Domiciliar// “Sonha então, maneiras de poder aterrizar/nisso que um dia foi/uma vida bem vivida”

Arranjo mais minimalista com um pouco de eletropop e piano, “Canção do Exílio Domiciliar” tem letras simples, mas com grandes significados de uma suposta separação. O mais interessante na canção é como Jay consegue interpretar as mesmas estrofes repetidas de modos completamente diferentes: introduzindo de modo mais calmo e grave crescendo o tom cuidadosamente levando para a repetição em uma interpretação com um tom maior e mais dramático, mostrando o quão versátil é.

4.Boneco de Vodu//”Então já sabe o que fazer com meu boneco de vodu, de vodu”

Mais uma canção com críticas à todas as crenças e superstições em uma canção mais rock and roll com flertes bem espertos de eletrônica fazendo um mix bem legal e intenso. Refrão é poderoso e deve trazer aquela atmosfera legal e intensa nos shows. Mas o mais interessante é o reveillon que vira toda a mesa de argumentos.

5.Outrora//”Derrapei/ Ao tentar controlar/ a vida passando/ a vida passando por mim”

Começando com uma introdução com uma voz eletrônica cantando os versos da canção, a música segue com um ótimo arranjo, mais minimalista até vir um piano com uma melodia doce e gostosa dando acompanhamento ideal para indagações sobre o tempo. Linda canção.

6.Possibilidade//”Implodia/ e o dia nem nascia/ Ria de euforia ecom alforria que viria/ Nos próximos capítulos”

Mais um flerte com eletropop e a participação de Jane Duboc nos backing vocals, o minimalismo da canção, bem delicada, dá mais ênfase à mensagem que aborda uma expansão do corpo, e aí fica a interpretação pro ouvinte, um dos pontos fortes da canção.

7. Como Quem Não Quer Nada//“Com sede nesta enchente/ Vai boiando conforme a maré”

Mais uma canção bem mais rock pop, ótimas programações e riffs de guitarra; as letras são cheias de crítica sobre aqueles que sempre querem chamar a atenção, “como quem não quer nada”, mas sempre com tudo planejado nos mínimos detalhes.

8.Hematomas da Teima//“Meu Caos, meu cais/ e dos males o melhor”

Mais uma canção com arranjos mais calmos, propositalmente, diria, mais uma vez para trazer atenção para às palavras sobre persistir em uma relação, om metáforas com imagens bem visuais e inteligentes- hematomas da teima são coisas que não são todos que tem.

9.Legítima Defesa//“Dora iria adorar espalhar minhas cinzas… mas ainda não acabou”

A canção tem a participação de Megh Stock, e é a continuação de “Estrela de um Céu Nublado”, uma das músicas mais icônicas de Jay que fala sobre a trajetória de um ator que sonhava em trabalhar em Projacland. Bem, desta vez, o mote da linha final da canção anterior tem uma reviravolta e a canção fala sobre o desdobramentos da vida deste ator. A canção também segue a linha de “Estrela” com um rock com ótimas riffs de guitarra e um ótimo refrão: a alternância das vozes de Jay e Megh mais uma vez funciona super bem para contar a odisseia do ator.

10.Baudaluv//“Tudo que me importa/Inspira e conforta/passa necessariamente/por você existir”

Usando programações com piano e suavizando o clima da canção anterior, “Baudaluv” é uma balada poderosa, com uma sincera e bonita declaração de amor. Tudo na medida, as batidas, palavras, arranjos e a voz de Jay em uma extensão incrível.

 

Canções de Exílio pode ter demorado para sair, mas ainda traz as marcas principais de Jay Vaquer:  arranjo e produção impecáveis, dando peso ideal para o vocal e os instrumentos, junto com a interpretação de Jay e suas letras, com metáforas inteligentes e trocadilhos e profundidade que é difícil encontrar no cenário atual. Talvez uma das maiores marcas de Jay seja a crítica, que mais uma vez encontra espaço no álbum- “Tudo Que Não Era Esgoto” traz em uma metáfora tantos significados reais da cultura brasileira que o ouvinte a pode tirar sua própria conclusão sobre qual seria o “esgoto”; “Quantos Tantos ” fala da nossa cultura de selfies, e o vazio das frases de impacto e “Como Quem Não Quer Nada”  com os idiotas de plantão além de “Boneco de Vodu” que tira um sarro de todas as superstições de uma jeito bem sarcástico. Há também momentos  tenros de doçura contrapondo a acidez do álbum, aí é que se encontram “Hematomas da Teima”, “Outrora” e “Baudaluv”. No entanto, uma das maiores surpresas é a continuação de  “Estrela de Um Céu Nublado”(que Jay já confirmou que terá o começo e o final em outros álbuns) com as mesmas tiradas sarcásticas sobre a nossa atualidade.

O alter-ego Dominus Proscriptus pode ter desenhado esta opinião de alguém exilado mas a produção do álbum também é destaque: não há nada muito pesado ou leve demais- tudo na medida certa para ressaltar cada coisa em seu tempo. Outro destaque são os vocais de Jay-  a extensão vocal e a interpretação, mostrando raiva, indignação, sarcasmo e doçura e suavidade, dependendo do que quer passar ao ouvinte. Mais uma vez, Canções de Exílio é um álbum de destaque, atual, um pop que mistura o melhor da qualidade sonora com críticas reflexivas, e que eu realmente espero que receba a atenção devida- pois talentos que fazem refletir assim, geralmente não são divulgado em mídia mainstream….