Fiona Apple- Fetch The Bolt Cutters

Artista: FionaApple
Álbum: Fetch the Bolt Cutters
Gravadora: Epic / Columbia Records.
Lançamento:Abril/2020

Fiona Apple sempre foi um nome forte na música contemporânea, em grande parte pelo seu grande talento em fundir em seu piano as abilidades de juntar jazz com pop, além de trazer narrativas cruas, reais, expondo seus sentimentos de uma forma tão universal e única, que é difícil não deixar de se ver alí em algum momento. As poesias de Apple sempre foram um ponto alto, desde o seu hit single “Criminal” ao surrealista “Every Single Night” de seu último álbum de 2012, Idler Wheel…. Com  quatro álbuns no currículo e uma evolução consistente (lembre-se das percussões cruas em Idler Wheel), Fiona então nos entrega seu quinto álbum de estúdio- Fetch The Bolt Cutters.

Como de praxe, o álbum levou um tempo para ser desenvolvido, 8 anos desta última vez. Com o controle criativo completo, incluindo os músicos que participaram das gravações, Fiona trabalhou no álbum, na maioria do tempo, desde 2012, em sua casa em Venice Beach, contando com a participações de músicos amigos de longa data à participação de sua irmã Amber Maggart nos vocais e a produção da própria Fiona com  Amy Aileen Wood. O nome do ábum surgiu de uma cena do seriado The Fall da BBC, em que um policial pede por um alicate para liberar uma prisioneira, o que Fiona sugere como uma metáfora para se liberar de tudo que nos impede de crescer. Nós então escutamos o álbum e segue nossa resenha faixa a faixa de Fetch The Bolt Cutters:

1 I Want Yout To Love Me// “And while I’m in this body/I want somebody to want
And I want what I want and I want/You to love me”

A canção que abre o disco, segundo Fiona, é uma carta de amor para alguém que nunca conheceu- apesar de servir ao ex Jonathan Ames (Sim, o Jonathan de Idler Wheel) algumas vezes. Com uma entrada experimental em percussão, a canção acaba em um piano bem bonito com acompanhamento de baixo, ilustrando bem as palavras de Fiona. Em uma belíssima declaração, reconhecendo morte e o desejo de ter alguém que o ame, a canção é um clássico Fiona Apple com toques de experimental no começo e no final dando um toque especial.

2 Shameika// “I didn’t smile, because a smile always seemed rehearsed I wasn’t afraid of the bullies, and that just made the bullies worse”

Voltando para os tempos de escola, Fiona relembra a garota Shameika que reforça que ela tem potencial (neste caso para fazer parte do time das populares), dos passos que dava para ir à escola e do tempo passado em sala, e logicamente, o trauma de criança com bulling, porém no final da canção ela relembra todas as boas qualidades que amigos próximos referiram à ela, e o então potencial que Fiona tem. Arranjos em piano acelerado pausa ao nome de Shameika para logo um temporal no piano vir, com o redemoinho de sons, Fiona entçao percebe o quão longe chegou e suas qualidades. Canção que relembra um pouco a Fiona Apple original.

3 Fetch the Bolt Cutters// “Fetch the bolt cutters, I’ve been in here too long/Fetch the bolt cutters, whatever happens, whatever happens”

A canção que dá nome ao álbum foi feita depois de ter o título do álbum definido. Em uma melodia delicada com percussão experimental e com uma boa linha de baixo, a canção acontece, explodindo no final com uma percussão maior e até latidos dos cachorros de Cara Delavingne e da própria Fiona Apple no fundo da canção. Com palavras ditas em uma forma bem gentil, Fiona conta situações em que escolheu se calar para não criar problemas e acabou pagando por isso no final. “Fetch The Bolt Cutters” pede exatamente isso: que você saia de sua área de conforto e se liberte da prisão que outras pessoas podem ter te colocado.

4 Under the Table// “Kick me under the table all you want/I won’t shut up, I won’t shut up”

Abrindo com o vocal de Fiona, a canção é gentil nos vocais e melodia, com pianos precisos para criar atmosfera e acompanhar o vocal de Fiona em momentos de clímax da canção. Inspirado em um jantar que Fiona não queria estar, e que alguém falou uma besteira e a cantora teve que corrigir a atitude. As vozes crescem em uma espiral assim como a tensão do momento acontece.

5 Relay// “Evil is a relay sport/When the one who’s burned/Turns to pass the torch”

Baseado na linha em destaque que Fiona escreveu aos 15 anos, que serve até como um canto a lá cheerleader, que repete na canção reforçando a ideia de que o ódio que você passa à alguém será passado adiante. Com percussão com objetos a canção aumenta em pressão nas pontes, e se acalma no interlúdio com vozes e instrumentos em total experimental parecido com o que Fiona Apple fez em “Hot Knife”

6 Rack of His//“And meanwhile I’m loving you so much/It’s the only reason I gave my time to you”

Comparado à sí mesma como uma guitarra em um suporte com outras guitarras (mulheres), Fiona confessa seu amor para o rapaz  e sabe que não é correpondida à altura. A canção com fortes e diferentes percussões serve como fundo com um piano para uma das  interpretações viscerais do álbum. Fiona sabe que está sendo usada como um objeto, embora saiba  disso, ela ainda demanda respeito

7 Newspaper//“I too wanted to make him proud of me/ And then I just wanted him to make amends/ I wonder what lies he’s telling you about me/To make sure that we’ll never be friends”

Abrindo à canção com sons do ambiente (casa da Fiona, escute o cachorrinho no começo!) e com uma percussão e bateria eletrônica, Fiona canta para a namorada do seu ex, e confessa que compartilha que conhece o setimento que está vivedo- de estar presa com uma pessoa manipuladora e ao mesmo tempo gostar da pessoa. Em uma confissão falada, com uma interpretação nervosa de Fiona, a canção se intensifica no final mas terminando com uma certa calma depois da tempestade.

8 Ladies//“There’s a dress in the closet/Don’t get rid of it, you’d look good in it/I didn’t fit in it, it was never mine”

A canção que foi performada em um show de 2013, e conhecida anteriormente por “Don’t Get Rid of It ( You’d Look Good In It)”, Fiona volta para um arranjo mais tradicional com uma linha de baixo presente, e baterias que brilham. Em uma carta às mulheres, Fiona afirma que não há nenhum amor igual, e relata que a próxima namorada pode estar a vontade em usar o que deixou para trás em algum canto da casa de seu ex, já que quem geralmente foi infiel foi o ex- namorado.

9 Heavy Balloons// “People like us, we play with a heavy balloon/We keep it up to keep the devil at bay, but it always falls way too soon”

Criando uma atmosfera pesada como a de um balão com uma percussão espaçada, “Heavy Balloon” fala sobre depressão e relata em boas metáforas como afeta as pessoas, a canção tem algumas transições, mas o que brilha é a interpretação do refrão de Fiona Apple.

10 Cosmonauts//“‘Cause you and I will be like a couple of cosmonauts/Except with way more gravity than when we started off”

Com um belo baixo abrindo a canção, logo o piano de Fiona entra e a canção se desenvolve. Escrita para o filme  “Bem Vindo Ao 40”, Fiona escreve do ponto de vista de um casal que vai ficar junto para sempre, por isso a frase de entrada ( Seu rosto queima o fusível da minha paciência/ Tudo que você fizer estará errado), Fiona sabe que junto ao amor, vem a dureza da convivência do cotidiano. A canção cresce, explode e no refrão uma bonita parte do cosmo é replicada com os backing vocals e outros efeitinhos especiais.

11 For Her// “Like you know you should know, but you don’t know”

Em unisono com a participação de outras mulheres, Fiona descreve aqueles homens prepotentes que não respeitam pessoas e suas mulheres, cansadas  de serem usadas e levarem a culpa.  A canção muda de ritmo várias vezes na canção, mas sempre com o vocal de Apple limpo para ser lido e entendido.

12 Drumset//“And the dialing of the phone/Is no longer fun/Since you’ve been done with me”

Baseado em um momento em que o namorado de Fiona terminou com ela e ao mesmo tempo ela teve um desentendimento com sua banda (que levaram algum dos instrumentos para a casa), e Fiona se sentiu sozinha, como ninguém a amasse, somente com o tapete da bateria para fazer companhia. A canção calma com uma percussão suave com bons backing vocals que reforçam tanto a teimosia de Fiona, quanto a delicadeza da canção.

13 On I Go//“On I go, not toward or away/Up until now it was day, next day/Up until now in a rush to prove/But now I only move to move”

A última faixa do álbum foi baseada no canto  Vipassana, em que Fiona começou a  mudar as palavras para algo que ela acreditasse mais que o sentido original do canto.  Com forte percussão, a canção tem backing vocals, e um instrumental com guitarras discretas, mas presentes, e uma descontração quando Fiona erra um dos cantos…

 

Fiona pode demorar para lançar um ábum novo, mas quando lança, é sempre um disco esperado, e com Fetch the Bolt Cutters não foi diferente.  Retomando as percussões  vistas em canções em The Idler Wheel… (lembre-se da percussão em “Hot Knife”, e as pisadas em areia com som rítmico em “Periphery”) a cantora volta e investe com tudo usando a percussão de objetos comuns e experimentando com baterias eletrônicas, junto com seu piano, marca registrada se sua música e trazendo aquele toque de jazz.

Porém, em Fetch the Bolt Cutters, Fiona Apple se apresenta mais leve e se sente mais livre para tanto experimentar no som, quanto nas composições. Fiona escreve mais diretamente, sem muitas metáforas sobre a sua relação consigo mesma (” I Want You To Love Me”, “Heavy Balloons”, ), as também medita sobre a relação com outras mulheres, algumas vezes complexa como em “Shameika”, outras vezes com compaixão como em “Newspaper”, “For Her” , sem deixar de lado o drama, histórias e impressões das relação amorosas com seus relacionamentos anteriores (“Rack of His” e “Under The Table”) . Ainda complexa, Fiona se arrisca em cantos, gritos de torcida, e frases faladas, e não peca em sua interpretação intensa, cheia de emoção colocando o ouvinte para simpatizar com seus sentimentos.

No entanto, o que Fiona traz em Fetch the Bolt Cutters, não é nada diferente do que a cantora já trouxe nos seus projetos anteriores, o que diferencia  esta fase é justamente esta liberdade de produção mais caseira, que reflete  em suas letras mais livres, soltas e cruas, assim como  em alguns dos arranjos do álbum com percussão com latas e tambores e caixas com terras, tentando traduzir a confusão mental que nos encontramos.  E, sinceramente, o álbum não é um trabalho super fácil de ouvir. Muitas das canções e percussões crescem a medida que você a escuta e há muitos temas pesados, que embora já foram tocados em outras canções de Apple, podem tornar gatilhos para muita gente.

Fetch the Bolt Cutters pode ser visto por muita gente como um clássico, mas não é nosso favorito, apesar de ser um álbum ótimo. Preferimos pensar que o álbum é uma evolução natural da discografia da cantora. Fiona está mais confiante, e tendo a direção do álbum, a cantora fez o que desejava, como uma fotografia do momento atual que está vivendo. É o álbum que marca a liberdade de criação da cantora, principalmente na experimentalização e na certeza que o álbum saiu como Fiona quis. Recomendamos então revisitar também toda a discografia de Fiona é incrível-desde Tidal (1996) a até The Idler Wheel…(2012), em todas as fases Fiona conversa e te desafia em suas letras e melodias de um jeito único e é isto que faz a artista tão especial.