Everything Everything- A Fever Dream

Artista: Everything Everything
Álbum: A Fever Dream
Gravadora: Sony RCA
Lançamento:Agosto/ 2017

Neste setembro, Everything Everything, completa 10 anos que Jonathan Higgs, Jeremy Piritchard, Michael Spearman e depois Alex Robertshaw tiveram a ideia de montar uma banda. Com três álbuns no currículo, todos eles com diversas características diferentes, o quarteto conseguiu traçar uma carreira estável, com fãs fiéis e liberdade para poder experimentar nos som único da banda, misturando tanto pop, math rock, rock tradicional, r&b com o falseto do vocalista Jonathan Higgs como uma das marcas registradas da banda; e também nas  letras com diversas camadas, com metáforas que envolvem tanto questões políticas quanto questões humanas, ora sérias ou hilárias, trazendo bastante reflexão pro ouvinte. A estreia Man Alive (2011) mostrou a complexidade da banda de um modo intrigante, atual e inédito, quanto Arc (2013), mais introspectivo mostrou que a banda também pode fazer ótimas baladas e tocar o ouvinte com temas mais “humanos”. Em Get To Heaven (2015), a banda finalmente experimentou um sucesso maior, fazendo um som mais pop, sem deixar de ser experimental e esquisito, focando em temas como terrorismo, líderes em ascensão e ainda temas como passado/ presente.

O quarto álbum, A Fever Dream,  partiu exatamente de Get To Heaven, depois de ver quase todas as previsões surreais descritas no álbum tornar-se realidade ( eleição do Trump, ataques terroristas mais frequentes na Europa, Brexit) a banda decidiu optar por uma atmosfera de sonho/ pesadelo para o próximo álbum, não direcionando tão diretamente os tópicos políticos, mas com um olhar de como estes acontecimentos afetam as pessoas comuns. Pois então escutamos A Fever Dream de ponta a ponta, e estas são nossas impressões:

1 Night Of The Long Knives// It’s coming (Shame about your neighbourhood)

Com título já com referência histórica à Noite das Facas Longas ( onde o Partido Nazista fez uma série de execuções políticas),  a canção tem uma atmosfera pesada e guitarras intensas (que parecem sirenes, ou até, apesar de oferecer o groove math rock que a característico da banda nas estrofes. Letras refletem na atmosfera tensa de quase guerra ( Yes the bomb may be falling/ Sim, a bomba pode cair), das ondas ideológicas que assolam na Europa e o quanto isso pode estar bem mais perto que imaginamos ( vizinhos, né?).

2 Can’t Do// “Help Me! I cant do the thing you want/ Can’t do the thing you want”

O primeiro single de A Fever Dream trouxe um pouco de mudança para a banda de Manchester, com um tom mais dançante logo no começo (e ótimo para as pistas de dança), com baterias mais agitadas e teclados, e baixo marcando o som do começo ao final. As letras deixam um pouco da qualidade Higgs de lado, mas segundo o mesmo, foram inspiradas em um bloqueio criativo ao escrever as letras da canção, e ao falar “I can’t do the thing you want// Não consigo fazer o que você quer” para James Ford, o mesmo teve a ideia de transformar as mesmas palavras em refrão, e a mensagem da frustração de não conseguir fazer algo sob pressão.

3 Desire// “I’m a pusher holder with the pusher holder blues”

Com uma pegada mais pop, uma melodia um pouco mais simples, backing vocals mais participativos e um refrão bem intenso e explosivo, “Desire” é bem direta ao ponto- tanto na canção dançante e acessível, quanto nas letras super diretas mas com algumas críticas nas entrelinhas. O tema da canção envolve a relação entre desejo e as pessoas que fazem o que dá na telha sem se preocupar com as consequências, mas o mais interessante é como as críticas são feitas em poucas frases: (Do you wish to see fire in the clouds?)/ Can  I tell you that I’m empty?// ( Você deseja ver fogo nas nuvens?)/ Posso te dizer que estou vazio?;  não bastou muito pra Higgs criticar toda uma modernidade atual.

4 Big Game// “And someone’s gonna burst your blood-blubber head/Even little children see through you/Someone’s gonna pull your big trousers down/ And I think you might explode”

Em um tom bem mais calmo e até melancólico, e o falseto de Higgs em um tom mais sereno, “Big Game” é arrastado com um vocabulário mais infantil, com algumas referências ao Trump. A canção parece uma reclamação não só ao Trump, mas aos políticos, em geral. A canção é recheada com um  ótimo riff de guitarra, quase encerrando a canção.

5 Good Shot, Good Soldier// “If I’m wrong then strike me down/With a bolt from the heavens/With a breath from a holy sigh”

Começando a canção bem suavemente com uma batida meio r&b, a canção se intensifica no refrão, e ainda mais no final da canção (maybe the worst is over / Talvez o pior acabou) como acontece no final de “No Reptiles”.  Higgs é bem discreto nas referências da canção, tanto políticas ( racismo, abuso de poder da polícia) quanto do dia a dia (obsessão por dinheiro), mas é a mensagem geral que é otimista que mais marca a canção.

6 Run The Numbers// “The Corridors of power are echoing with something for everyone /Nothing there for you, and there’s nothing there for me”

Vocais mesclados de Jonathan Higgs e Jeremy Pritchard, e um começo bem calmo também (com mais ênfase nas letras), a canção fica intensa no refrão, com guitarras bem pesadas, e as camadas começam a partir daí. As letras tem uma leve referência ao Brexit (números de pessoas que votaram no referendo) e até números de dinheiro ( para os multimilionários) e resultados de pesquisas principalmente envolvendo meio ambiente. A cereja no bolo dessa canção é o riff  math de Alex Robertshaw.

7 Put Me Together//“And there’s somebody washing the car and there’s/Somebody watching the children/But they’re nothing like you and me”

Uma gravação inesperada ao contrário introduzindo a canção, e mais um tom sereno e calmo, como se fosse uma canção de ninar, apesar de várias camadas na canção, há uma intensidade no final da canção. As letras retomam “vizinho “como tema , e várias camadas de interpretação ( vizinhos reais ou de país, e até preconceito com os imigrantes)

8 A Fever Dream// “Lord, I see a fever dream before me now”

A faixa que dá nome ao álbum passa  por algumas fases, começando com uma introdução com cantos gregorianos para uma belo piano  e som calmo que vai pouco a pouco ficando mais complexo com camadas e um ritmo mais acelerado, até vir a ser um eletrônico. A frase “Lord, I see a fever dream before me now”  é repetida até o final da canção, junto com as transições de ritmo que fica cada vez mais dançante. A canção também pode ser interpretada como um sonho, com uma intensidade de uma febre logo no final na canção onde fica mais mecânico e intenso.

9 Ivory Tower// “We didn’t think that it would happen and we never will “

Talvez a canção mais política do álbum, com bateria lembrando fanfarra, um refrão difícil de cantar (como um trava-língua) e riffs de  guitarra bem presentes  tanto no refrão, quanto como principal recheio da canção. Com referências claras à saída da Inglaterra da União Européia- Brexit, mas de um ponto de vista da elite que estava a favor do país sair do bloco econômico, as letras são cheias de ironia, e até um pouco  de afronta. Um dos pontos altos do álbum.

10 New Deep//  “Is there something wrong with all of this/ Or is there something wrong with me?”

“New Deep” começa com sons de um ambiente chuvoso, com direito à trovão e tudo. A canção em si é uma bela balada no piano com somente  as perguntas “Is there something wrong with all of this/ Or is there something wrong with me?” (Há algo de errado com tudo isso, ou há algo de errado comigo?) como únicas palavras da canção. Simples, mas super impactantes, ainda mais com outros barulhos de background ( balanços, porta de carro, portão).

11 White Whale// “I want you to be okay/I want us to be okay”

A canção que encerra o álbum mostra uma delicadeza que faz tempo que a banda não mostrava. A canção começa com piano e um pouco de programação e voz, para  se intensificar no refrão com “Never tell me that we can’t go further/ Nunca nos diga que não podemos avançar” como uma canção infantil, levando o instrumental a brilhar lindamente. As letras são um pouco dúbias, às vezes, podendo relacionar tanto à um relacionamento, quanto ao nosso futuro, na humanidade.  Os sons de baleia fecham a canção e o álbum com um certo calor no coração.

A Fever Dream realmente conseguiu oferecer a atmosfera de sonho (com alguns elementos de pesadelo), com uma sonoridade bem leve e densa ao mesmo tempo ( provavemente trabalhada com James Ford, que conseguiu fazer coisa semelhante na produção de Humbug (2009) dos Arctic Monkeys) com muitos elementos que soam um pouco desconfortantes ( o loop hipnótico de “A Fever Dream”, a intensidade de “Ivory Tower” ou até os riffs de guitarra de “Night of the Long Knives”) que provocam  não só algumas sensações no ouvinte como também até uma certa reflexão. Quanto às letras, Higgs se mostrou mais conciso e certeiro, com letras de fácil entendimento e até memorização, com referências mais claras em algumas músicas. Algumas canções parecem mais simples, mas depois de algumas ouvidas, é possível ver que há mais interpretações para algumas delas ( “Big Game” e “White Whale”, por exemplo). Ainda há menções aos eventos e o pandemônio político que vivemos com muitas críticas delicadas, mas Higgs foca também nas pessoas comuns ( “Neighbour/ vizinho” é uma palavra chave para o álbum, pode significar não só o preconceito com o outro, mas também do país inteiro com outros países) e como todos estes eventos afetam a todos.

O mais interessante de A Fever Dream, ao contrário da raiva e ironia exposta do antecessor Get To Heaven, é a serenidade do álbum. Logicamente, há momentos mais intensos e inquietos, mas tanto na atmosfera do arranjo das melodias quanto no falsete de Higgs, há um certo aconchego, como se fosse um abraço. A banda afirmou que queria trabalhar mais o elemento humano neste álbum, o que acontece em algumas frases de algumas canções, mas acredito que a banda alcançou o esperado mais pelas por estabelecer esta atmosfera. Todo o surreal do mundo atual teve um papel em A Fever Dream, mas os meninos do Everything Everything souberam bem passar o que é mais importante deste “sonho”.

 

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