Elbow- Little Fictions

Artista: Elbow
Álbum: Little Fictions
Gravadora: Universal Music
Lançamento:Fevereiro/2017

Uma das bandas mais talentosas da Inglaterra, com um Mercury Prize no currículo, mas pouca fama, Elbow sempre surpreende com as melodias bem pensadas (até com presença de orquestras em algumas delas) e letras cheias de metáforas sobre a vida- algumas delas sendo belíssimas declarações de amor entre outras várias observações singulares sobre a vida cotidiana. Com alguns EPs lançados e 7 álbuns na coleção- entre eles Seldom Seen Kid (2008) que consolidou a carreira da banda e The Take Off and Landing of Everything (2014) que também trouxe atenção pelo single “New York Morning” (em uma referência à Yoko Ono) e alguns clipes bem feitos.

Logo no final de 2016, Elbow anunciou que Little Fictions, o oitavo trabalho da banda, estava à caminho e lançaram o primeiro single “Magnificent (She Says)”, seguido por um lindo clipe que retratava a cultura de Myanmar. Logo, já vimos algumas características da banda, como o instrumental bem executado  com orquestra e  a voz marcante e suave de Guy Garvey , porém  há um certo toque otimista tanto nas  melodias quanto nas palavras, o que de certo modo também estavam nos próximos singles “Gentle Storm” e “All Disco”.  Este álbum é o primeiro sem o baterista Richard Jupp e segue o trabalho solo de Guy Garvey- Courting of the Squall. Escutamos então Little Fictions e fizemos resenha faixa a faixa do trabalho desta banda de Manchester:

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1 Magnificent (She Says)//“It’s all gonna be magnificent, she says/ It’s all gonna be magnificent”

O primeiro single liberado, “Magnificent (She Says)” trouxe de volta o instrumental conciso e a tão esperada orquestra em alguns momentos da canção, além de uma energia um pouco mais positiva, como se o vocalista Guy Garvey introduzisse o mundo para uma garotinha (uma filha? não é muito claro). Com várias metáforas sobre mensagem em uma garrafa, praia e descobertas, “Magnificent” é um ótimo começo para o álbum e uma das melhores faixas que Elbow já gravou.
2 Gentle Storm//“Gentle storm/ Rage my way/ Fall in love with me”

Um pouco de experimentação é vista ao longo de “Gentle Storm”, com um ritmo hipnotizante de percussão ao fundo contrastando com o piano e a voz suave e firme de Guy Garvey, em uma belíssima interpretação. Quanto às letras, “Gentle Storm” é uma belíssima declaração de amor cotidiano- nos momentos de espera, o sentimento de felicidade ao estar perto da pessoa, e um pedido da “rage storm”, deixar a raiva de lado para dar espaço ao amor.

3 Trust The Sun// “I just don’t trust the sun to rise/When I can’t see your eyes/You’re my reason for breathing”

Começando com um instrumental de um minuto, guitarras e baixo presentes, para depois o piano e voz dares as caras, em uma melodia simples mas cheia de interpretação e muitas metáforas  sobre amor , com um piano e guitarra marcando o refrão sutil da canção. A suavidade e delicadeza da canção são os pontos altos de “Trust The Sun”.

4 All Disco// “What does it prove if you die for a tune/ It’s really all disco”

Mais uma canção trabalhada em camadas, “All Disco”, tem ao longo da canção uma cantora sussurrando em uma outra camada enquanto o instrumental impecável com piano, bateria e guitarra fazem a melodia, assim como Guy Garvey interpreta em metáforas de incentivo de sair de alguma situação difícil. A inspiração para “All Disco” vem da época que Guy Garvey era jornalista e entrevistou Black Francis do Pixies perguntando qual seria o mais novo som do momento e a resposta foi “You have punk rock, you have rock, you have blues, you have soul – it’s all disco”  (Você tem punk rock, você tem rock, você tem blues e vicê tem soul- todos são disco (Música)”

5 Head For Supplies//“Across the city there’s a golden chill/A rare holding still/As if somebody’s gonna sing”

Mais uma balada, “Head for Supplies” também segue com uma melodia simples com uma guitarra, baixo e bateria e voz levando mais o foco no conteúdo dos versos e interpretação de Garvey- que descreve um lugar da cidade e os sentimentos que tem por alguém e a felicidade que é estar presente com aquela pessoa.

6 Firebrand & Angel//“Fella interstellar, I’m broken in two/And I blame you”

Conversando com um alter ego espacial, Garvey reclama de sua decepção amorosa, ao  não perceber a dor que causa na sua amada e de seu cansaço e pede por alguma ajuda para recuperar o tempo perdido, até confessar que dormiu na rua  e ainda espera que um dia a garota volte e fique com ele. Toda esta informação embrulhada em um ótimo instrumental com piano e guitarras fortes (típico da banda) e um coral em sobreposição para o final da canção que fecha grandiosamente a canção.

7 K2// “Hands up if you’ve never seen the sea/We’re from a place with an island status”

Com um instrumental longo abrindo a canção e os vocais de Guy Garvey confusos com em efeito de eco, com mensagem em várias metáforas de discussões na internet e uma provável referências à política da Inglaterra, porém a mensagem é bem clara: que o amor é a única coisa que faz abrir um punho. Quanto à canção tem um ritmo bem compassado com um baixo bem presente, guitarras em alguns riffs que dão uma atmosfera leve (lembra um pouco bossa nova)

8 Montparnasse// “Your heart could easy power three of me/Should my love get lost in the delivery”

A canção que leva o nome de um dos bairros de Paris, é uma balada romântica com várias metáforas e referências sobre os desencontros, decepções amorosas e lembranças. Com ritmo conduzido por um piano e voz, com alguma pitadas de guitarras acompanhando a melodia. A sagacidade das metáforas e a interpretação de Garvey faz desta canção um dos pontos altos do álbum e uma das canções mais bonitas de Elbow.

9 Little Fiction// “A muffled battle cry across the kitchen table/Bridges up portcullis down and round the Tower of Babel”

Mais uma canção em que a banda aposta pesado na percussão em um instrumental rápido nos versos e bem espaçado no refrão e um jam fantástico para fechar a faixa que dá nome ao álbum. Quanto às letras fala exatamente dos nossos atritos e nossas visões, nossas “pequenas ficções”, que ás vezes irritam outras pessoas e como o amor (milagre original) pode concertar tudo. Não é à toa que Little Fictions foi escolhido como o título do álbum- a canção traz a experimentação da banda com percussão e com o jam no final, e ainda traz o tema otimista, mesmo abordando os problemas usuais que temos no dia dia. Outro ponto alto do álbum

10 Kindling// “Warming and guarding and guiding/The one that I love”

A canção que fecha Little Fictions, tem um instrumental bem ritmado com presença de orquestra em um tom suave de uma balada melancólica e um pouco triste. Com algumas metáforas bem visuais, Garvey descreve o sentimentos de se distanciar de quem ama e o quanto seu mundo muda com algum contato (Then my telephone shakes into life and I see your name/ And the wheat fields explode into gold either side of the train// O telefone vibra em vida e vejo seu nome/ e os campos de trigo explodem em dourado em ambos lados do trem). O fato de terem gravado uma conversa de estúdio no final traz ainda mais aconchego para o álbum, e reforça a proposta um pouco mais calorosa do disco.

 

Embora muitos dizem que Elbow não tenha mudado muito desde Seldom Seen Kid, ficou claro que Little Fictions traz uma proposta diferente, um pouco mais positiva e, por que não, inspiradora. Muito desta mudança deve-se provavelmente as mudanças que Garvey estava vivendo em sua vida (o que também deu inspiração à seu álbum solo Courting of the Squall). Pelas animações em “All Disco” e a capa do álbum, parece mesmo que há um enredo por trás, principalmente em “Magnificent (She Says)” há algumas metáforas que  indicam descoberta de um mundo novo, porém o tema amor e perseverança são alguns dos temas mais recorrentes em metáforas bem visuais e que retratam aqueles pequenos momentos do dia a dia de um modo bem perspicaz e certeiro. Canções como “Little Fictions”, “Montparnasse”, “FireBrand and Angel” são algumas das canções em que Garvey brilha como liricista, algo que não perdeu desde suas primeiras composições.

Quanto ao instrumental, a produção do tecladista Craig Potter continua impecável: em  “Magnificent (She Says)”, traz toda a destreza da banda em mesclar o som da orquestra com a essência da banda, a canção faz uma bela ponte ao último álbum The Take Off and The Landing of Everything e introduz esta nova atmosfera otimista da banda; em “Little Fictions” a sobreposição de vozes em coral e o instrumental surpreendente mostram ainda mais o quanto a banda tem inovado, tanto em percussão quanto na marca registrada da banda em piano e guitarra.

Little Fictions traz toda a sofisticação dos trabalhos anteriores e ainda traz várias epifanias em letras com ótimas metáforas sobre nosso cotidiano e sentimentos, todos embrulhados em melodias suaves e bem executadas, ora brincando com camadas ou com o instrumental um pouco mais original. É possível ver uma evolução da banda enquanto sofisticação melódica, além de uma mensagem mais otimista e menos melancólica como visto nos álbuns anteriores. Seldom Seen Kid pode ser o melhor álbum da banda, mas Little Fictions também se coloca como uma das obras primas de Elbow.

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