Cícero- Cosmo

Artista: Cícero
Álbum: Cosmo
Gravadora: Independente
Lançamento:Março/2020

Cícero é um nome que já não precisa de apresentações. Após seu disco de estreia, Canções de Apartamento (2011), o cantor consolidou seu nome na cena de música brasileira, e continuou com prestígio com cada álbum que lançava, arriscando em cada produção com elementos novos, sem deixar que seus versos cheios de observações e sentimentos fossem ofuscados. No último álbum de Cícero, Cícero e Albatroz (2017), o cantor abraçou o uso dos metais em sua melodia e explorou texturas junto com sua banda Albatroz, já em seu novo álbum Cosmo, também há experimentação, mas diferente.

Com produção de Cícero, o álbum foi escrito em Portugal, onde o cantor agora reside. Cosmo tem 30 minutos de duração e 10 canções, que englobam ora momentos felizes e ora aquela melancolia já marca registrada do cantor. Os instrumentais também conversam bastante com os sentimentos dos poemas musicados, apesar de mais simples, as canções também oferecem a complexidade e riqueza que achamos em muitas composições do cantor. Pois então segue então nossa análise faixa a faixa de Cosmo, o quinto álbum de estúdio de Cícero.

1 Falso Azul// “Céu não há hoje, foi embora/Tem mas não tá ou não quer aparecer”

O primeiro single e canção de Cosmo começa temperamental, com um teclado em modo órgão levando a canção enquanto Cícero elabora a falta de sol. A canção começa a crescer e com algumas camadas suaves, brilha em otimismo com os instrumentos que aparecem e se mesclam até vir a parte aconchegante em que Cícero percebe um sonho

2 Some Lazy Days// “Mulher eu vou fazer um filme/ Vai se chamar Some Lazy Days”

Uma das faixas mais alegres do álbum com uma guitarra levando o som descontraído, Cícero conta como seria o filme “Some Lazy Days” que  seguiria um filme ensolarado e gostoso, deixando os dramas e problemas da cidade de lado. A canção tem uma estrutura mais covencional, mas mesmo assim surpreende e expande no final da canção.

3 Esquinas// “E uma canção anima o tempo que não quer passar/Pelos caminhos do meu coração/Imagem gasta”

Com um instrumental bem delicado, com guitarras e uma percussão pontuada, e com um baixo discreto mas delicioso, a canção permanece baixa para que a mensagem tome destaque. Em uma esquina, Cícero se depara com uma garota e começa a divagar sobre ela em uma linda melodia, a viagem da mente segue a linha da canção, com várias boas observações do dia a dia.

4 Às Luzes// “Todas as cidades/Todas as saudades/Tudo que se perde em mim/Ou não encontrei”

Com uma percussão e piano e voz levando a primeira parte da música, Cícero descreve  a sua procura por um amor no escuro, toda a confusão até a canção diminuir o ritmo quando se depara que seu amor é sua luz. A canção recebe um otimismo com uma linha de baixo contagiante quando percebe que o final é com sua amada.

5 Marinheiro Astronauta// “Vem o Sol, pronto pra nos assar/Onde for, ele também vai estar/Pois bem, o tatuí veio pra me avisar/Que não é para me preocupar”

Uma das faixas experimentais, como se fossem três músicas de marinheiros diferentes dentro de uma, vamos dividir a faixa em 3 momentos. O primeiro com violão e voz, a delicada canção retrata uma preparação para o marinheiro ir ao mar junto com um delicioso assobio, já a segunda parte da canção entra um sintetizador junto com percussão e  um violão que faz a canção crescer na segunda parte, repetindo o mesmo refrão, a canção assegura o poder do sol e que também não é necessário preocupação. A terceira canção começa com uma percussão rico com aquela sobreposição de vozes bem legal que Cícero é mestre em fazer, terminando com sons de espaçonave no univers e fazendo a ponte de marinheiro e astronauta.

6 Miradouro Nova Esperança// “Entre o céu e o chão/É tudo meu terreno”

Violão e voz começam  a canção que começam a levar camadas com belíssimos violinos e explode no final da canção com um lindíssimo instrumental. Com mais referências de céu, e mesmo reconhecendo suas conquistas, Cícero confia que com o tempo as coisas irão melhorar. Canção delicadíssima e bem bonita.

7 O Que Ficou// “O que ficou/ é de ficar/ é ganhar do tempo”

Canção delicada com violão e uma percussão suave, que cresce com o tempo e desenvolve para um lindo instrumental com violinos. Cícero então se perde em seus pensamentos e memórias e tenta revisitar algumas memórias com a consciência que muitas se perdem com o tempo.

8 A Chuva// “Ela foi embora/Quis sofrer não consegui”

Usando bem os instrumentos para criar uma atmosfera densa (atenção para o baixo e o sintetizador) Cícero mistura sua melancolia e um pouco de remorso em seus versos, e relaciona a chuva com sua dor de perder sua amada. A delicadeza da percussão, imitando a chuva e a voz suave de Cícero faz uma das canções que trazem um pouco o clima de Canções de Apartamento.

9 Banzo// “A estrada vai longe/É preciso perder pra ganhar/Entender é o escombro”

Com um violão e voz começando a canção, Cícero coloca o nome Banzo (do quimbundo mbanza que significa um sentimento de melancolia da terra natal- ou saudade) na canção em que o cantor revê um pouco de sua jornada, com dúvidas que o tempo possa resolver e uma leve aceitação do destino. A canção termina com um riff de guitarra repetitivo que cresce e fecha a canção.

10 Nada ao Redor// “Nós pequenos, distraídos, querendo significar/ Nós eventos desconexos fugindo de insignificar/ Para aliviar a queda”

Em um delicada balada com voz e um piano que cresce com um violinos dando uma atmosfera mais densa e um pouco mais espacial para a canção, Cícero reflete sobre nossa pequeneza no espaço-tempo e como no final somos parte de uma grande dança, um cosmo. Canção bem simbólica para concluir o álbum.

 

Neste quinto álbum de estúdio de Cícero, temas como desilusão amorosa, melancolia e solidão voltam a estar em destaque nos poemas musicados de Cícero. Como em Canções de Apartamento, Cícero expressa bem suas dores em faixas como “Falso Azul”, “Chuva”, e o discreto “Esquinas”, e uma bela saudade em “Banzo”. Há muitas menções ao Céu nas canções, um sinal de melancolia em “Falso Azul”, o sol cuidando do casal em “Some Lazy Days”, um céu distante em “Miradouro Nova Esperança”- não é à toa que o álbum se chama Cosmo, já que o Céu é onde Cícero busca por respostas, além de ser termômetro para seus sentimentos. O Tempo e a sabedoria que tudo passa, só basta esperar também está presente no álbum, e de que também  o tempo também nos transforma.

Quanto ao instrumental, Cícero permanece com a sofisticação de seu som, misturando as violões com alguns toques de sintetizador, mas mantendo a maioria  das canções  minimalistas no começo e trabalhando camadas até ter um final bem encorpado. O uso de violinos em algumas faixas do álbum também oferecem um pouco desta atmosfera “cósmica” no som que Cícero oferece em algumas faixas, em especial “Nada ao Redor”. O uso de violão e guitarras para dar aquele charme na canção foi bem usado, lembrando o Cícero do começo de carreira.

Cosmo consegue trazer um outro universo de Cícero (trocadílho intencionado aqui), mesmo reciclando aspectos e temas já utilizado em outros trabalhos do cantor.  Ainda capaz de casar bem o intrumental com seus poemas, em casos que a melodia fale mais alto que as palavras, ou te leve para lugares. Cosmo tem melancolia e felicidade, reflexão e saudades e conquista o ouvinte com mais melodias bem caprichadas e aconchegantes.