Cícero-Cícero & Albatroz

Artista: Cícero
Álbum: Cícero & Albatroz
Gravadora: Sony Music
Lançamento:Dezembro/ 2017

Já faz um certo tempo que Cícero Rosa Lins apareceu e encantou o cenário brasileiro com Canções de Apartamento (2011). Voz e violão do primeiro álbum tornaram-se mais complexas com as experimentações musicais  em Sábado (2013), e o sucessor A Praia (2015) toma tons um pouco mais leves, mas sem deixar a poesia complexa e o som ainda intrigante. Pois a primeira “trilogia” de álbuns de Cícero acabou, e logo ao lançar a faixa “A Cidade” é possível identificar mudanças na obra do cantor.

Cícero depois da era de A Praia saiu de São Paulo e mudou-se novamente para o Rio de Janeiro e lá começou a trabalhar no novo projeto. Agora Cícero & Albatroz, incluindo  em nome a banda que sempre acompanhou o músico, o cantor aposta em peso em metais e percussão para trazer vida aos seus poemas/letras, sem deixar a grande profundidade nas palavras sempre concisas. Escutamos as novas 10 faixas do álbum e fizemos nossa resenha faixa a faixa a seguir:

1 Aurora N° 1//“E se meu fim chegar/Chegará amanhã/Junto à luz do dia claro e imenso”

Abrindo o álbum com uma percussão e metais, a melodia segue o ritmo destes dois dita o tom da canção, que por vezes soa um pouco quebrada (intencionalmente). Guitarras também fazem parte e dão um tom mais caloroso para a canção, logo quando Cícero canta palavras de esperança para o amanhã que espera. As letras  falam sobre  um amanhã, todas as expectativas boas quanto ao novo dia, mesmo com a previsão daqueles acontecimentos que ferram nossa vida. A canção fecha com um instrumental lindão de metais.

2 A Ilha// “Por onde vou/Não vai o caos que me cerca”

Em um tom bem mais pra cima, “A Ilha” começa com banda e metais em uma melodia cheia de energia, e um  baixo bem presente na canção. As letras são super cuidadosas e concisas e descrevem os pensamentos que podem ser inconstantes mas, ao mesmo tempo, podem nos ameaçar. Mais uma vez um dos destaques são os metais trazendo uma boa dose de energia na canção.

3 Não Se Vá// “Essa vida breve/Não tem direção”

Com atmosfera leve e bem animada, com um piano ditando toda a energia e ritmo  da canção, “Não Se Vá”, tem vocais um pouco mais rápidos, com até backing vocals (em “o mundo segue cego”), um violino aparece na segunda parte da canção dando um toque mais forte e delicado à melodia. Muito sabiamente, Cícero recomenda levar a vida mais leve, deixar todo o peso da vida de lado para focar mais no positivo, afinal, shit happens!

4 À Deriva// “Vi no teu rosto/Um novo horizonte”

Como um naufrago à deriva,  Cícero da metáforas de como descobriu um novo horizonte fazendo paralelo à metáfora de estar em um barco. Começando com uma bateria para logo vir metais com força, a canção traz uma certa serenidade e acolhimento até a explosão de intensidade da segunda parte da canção (“eu tava no barco”) e metais, mais uma vez, fechando bem a canção.

5 A Cidade// “Um dia breve no cimento/Um dia alegre no cimento”

Grave e soturno, o primeiro single de Cícero & Albatroz conta com metais em tons bem graves e percussão bem espaçada, e um pouquinho de sintetizador logo no final da canção para acrescentar um pouco de drama para as letras que descrevem um acidente de carro (logo, o clipe da canção) e o fato da cidade sempre estar em movimento e o acidente ser só parte da rotina. Lembra bastante a crítica também feito por Chico Buarque em Construção. Um dos pontos mais altos da canção é o instrumental do final, com metais, violinos, vozes sobrepostas e ecoando, buscando um pouco do caos organizado urbano.

6 Velho Sítio//“Lento vai passar/Quem um dia eu fui”

Com um tom de guitarra que lembra bem a atmosfera de Sábado, “Velho Sítio” é bem minimalista no começo, com guitarra voz, e tem a melancolia que sempre conhecemos de Cícero, mas com aqueles detalhes instrumentais, com piano e xilofone que fecham bem a canção. Letras sobre se reinventar, de procurar em sí coisas sobre nós mesmos.

7 A Rua Mais Deserta// “Na rua mais deserta/Os postes a luzir”

Começando com um tom mais grave, tanto nos metais como no baixo ( que comanda muito bem a melodia da canção), Cícero conta sobre uma rua e uma praça deserta e tudo que acontece ali e de certo modo é invisível. Os metais entram mais uma vez na segunda metade do álbum e fecham a canção dando mais gravidade para a canção.

8  A Grande Onda// “Vem ver envergando os prédios/ Inundando os becos da nossa visão”

Abrindo com violinos e uma percussão bem suave, Cícero se torna apocalíptico e imagina uma grande onda invadindo a cidade, mesmo assim, ele descreve fielmente como o lugar se encontra, de dentro para fora. Novamente, o instrumental que fecha o álbum é intenso: sucedendo algumas palavras distorcidas, os metais entram, fortes, mas suaves, junto do caos acontecendo em background.

9 Aquele Adeus// “E o tempo a passar e se repetir/Todo momento está a seguir/Com ou sem você aqui”

Com violão e voz em um tom bem melancólico e doce, Cícero fala de despedidas, a tentativa de tentar reconectar com a pessoa para logo depois perceber que, no final, não valeria a pena. Música simples, super tocante e que com certeza muita gente vai se identificar.

10 Um Arco// “Calma e vazia/Imagem clara/De um dia que partiu”

Calmo com uma guitarra, percussão e voz em uma melodia doce e bem delicada, Cícero descreve o final de uma tarde, um dia que foi, e por metáfora da tempestade, a confusão ou angústia que vem nos visitar nesta hora perigosa do dia. O encerramento da canção e do álbum com metais em pleno vapor em uma intensidade linda, com violinos, distorções, como uma tempestade e a respectiva calmaria.

 

Há duas características novas no trabalho de Cícero que chamam atenção nesta nova fase, a primeira, e a mais evidente, é o fato do cantor encorporar o nome da sua banda oficialmente no nome do disco e de sua carreira- isso também inclui o fato de ter bem mais metais neste álbum, o que deu uma certa sofisticação no álbum. O segundo é atmosfera alegre e cheia de energia, principalmente nas três primeiras canções, e até mesmo o ponto de vista de Cícero, que aponta as coisas boas da vida, embora ainda tenha consciência de todos os pontos baixos e surpresas tanto positivas e negativas que a vida pode trazer.

Embora o álbum comece com um tom alegre e pra cima tanto na energia, melodia e palavras das canções, o álbum entra em um momento mais sério em “A Cidade” e retoma um pouco da atmosfera de Sábado em “Sítio Velho”, além de outra crítica social em “A Rua Mais Deserta”, há um pouco de melancolia, tanto sonora quanto poética, que conhecemos do Cícero, misturada um pouco com o tema do álbum- de deixar o tempo e a vida passar um pouco e aceitar os acontecimentos como são. “Aquele Adeus” é um pouco mais pessoal, retoma  um pouquinho do Cícero de  Canções de Apartamento,  mas um pouco mais consciente dos contratempos da vida e “Um Arco” traz  mais um pouco da melancolia mas fecha o álbum com a sabedoria de Cícero e um arranjo arrebatador de metais.

Cícero & Albatroz  traz certamente Cícero em uma fase mais leve e alegre, mas o cantor soube colocar a melancolia vista nos outros trabalhos como sabedoria para lidar melhor com a vida e transformar seu som em algo mais leve, experimentando e encorporando metais de uma forma totalmente única em seu som. Um álbum que estou ansiosa pra ver ao vivo, além de deixar curiosa em qual inovação pode vir do cantor!

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