Bon Iver- 22, A Million

Artista: Bon Iver
Álbum: 22, A Million
Gravadora: Jagjaguwar
Lançamento:Setembro/ 2016

Bon Iver é o projeto que Justin Vernon criou logo após sair de uma banda, romper com a namorada, enquanto se recuperada de um tipo de hepatite em uma cabana em Wisconsin, Estados Unidos, em pleno inverno rigoroso- de onde veio o nome do projeto, “Bom Inverno” em francês. Com o projeto veio também o primeiro álbum, For Emma, Forever Ago (2008), concebido na tal cabine em Wisconsin com alguns equipamentos simples e que mesmo com status de “demo” foi lançada como álbum e  despontou Vernon para o mundo com seu folk e letras sensíveis e sinceras. Em 2011, Bon Iver lançou um álbum auto-intitulado, Bon Iver, Bon Iver que contou com a participações de grandes músicos e um tracklist que descrevia um lugar diferente nos Estados Unidos, cada música um lugar/ cidade diferente, o som folk cresceu ganhou corpo com cordas e metais e uma banda maior, o que levou o álbum a até ganhar Grammy de álbum independente.

Pois depois de 5 anos Bon Iver retorna com uma sonoridade totalmente nova em 22, A Million. Desde a capa com os símbolos místicos, aos números e o eletrônico e samples- elementos novos no som de Bon Iver, mas sem deixar a marca registrada de seu canto em falsete e suas letras para trás. Letras , aliás tomam um universo à parte com os títulos em emoticons e várias referências entre elas numerológicas em que transcende os lugares físicos de Bon Iver, Bon Iver e coloca o foco em relações humanas- tanto a relação consigo mesmo, quanto a relação com o outro. Embarcamos na viagem experimental de Bon Iver e fizemos resenha faixa a faixa do álbum 22, A Million.

bon-iver

 

01 22 (OVER S∞∞N)// “(It might be over soon, two two)/Where you gonna look for confirmation?/And if it’s ever gonna happen”

Com um tom melancólico, abrindo o álbum com uma mudança não muito brusca de sonoridade, samples , piano, camadas com “two two”, embora seja calmo com um bom solo de saxofone no meio e cordas fechando a faixa. 22 é o número de Justin Vernon, diz que lembra dualidade, e as letras também remetem à uma viagem em que Vernon fez à Grécia e se sentiu perdido, sozinho e continuava a falar à si mesmo “It might be over soon “/ “Isso deve acabar logo”

02 10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠// “Love, don’t fight it/Love, don’t fight it/Love…”

Com samples da canção de Stevie Nicks, “Wild Heart”- Bon Iver usa e abusa de baterias eletrônicas e até um saxofone eletrônico. A canção é bem dançante e trabalha com texturas e te leva em uma viagem sonora com diversas sensações. As texturas lembram muito o que Sufjan Stevens fez há alguns anos com The Age of Adz. As letras são confusas, ora falando com um amante ou com um amigo- mas há o sentimento de mudança e de se prontificar a fazer algo e superar a insegurança.

03 715 – CRΣΣKS// “Oh, then how we gonna cry/ Cause it once might not mean something/ Love, and second glance”

Canção curta com só a interpretação de Vernon em voz distorcida pelo auto-tune, lembrando bastante o que Imogen Heap fez há mais de 10 anos com a canção “Hide and Seek”. Quanto às letras 715 é o código de Wisconsin, onde Vernon tem uma grande ligação e escreveu o primeiro álbum, e as letras contém várias referências tanto bíblicas (left in the reeds- referência à Moisés) à esportes e natureza. Entrelinhas, Vernon fala sobre amor, e a dificuldade em se relacionar sendo que não está bem com sí mesmo.

04 33 “GOD”// “I’d be happy as hell, if you stayed for tea”

Com  3 minuto e 33 segundos e lançada intencionalmente 33 dias antes do lançamento da canção (Bon Iver bem místico aí). Com samples distorcidos da canção “Morning” de Jim Ed Brown e Paolo Nutini, “Iron Sky”- a canção começa com um piano e a voz dos samples e algumas camadas com vozes- logo para o meio é introduzida uma bateria eletrônica e um pouco mais de corpo. As letras tem muitas referências- um vertente fala que a canção é sobre seu relacionamento com deus, outra que aborda os relacionamentos humanos, a “criança ignorada” que é forçada a amadurecer.

05 29 #Strafford APTS// “Fold the map and mend the gap/And I tow the word companion/And I make my self escape”

A canção retoma o folk de Bon Iver, mas tem a participação do baterista Sean Carey nos vocais com Justin Vernon (cada um em um canal diferente dos seus fones de ouvido😉 ), “Strafford” é uma bonita canção sobre o rompimento da relação com Claire- da indecisão, dos momentos bons do relacionamento e a parte final da separação. Bem bonito e bem metafórico.

06 666 ʇ// “Sixes hang in the door/What kind of shit to ignore”

666 também é conhecido como o número do capeta, para Bon Iver na faixa “666 Upside down Arrow”, 666 pode significar a má sorte em que está vivendo. A canção também é experimental sendo a primeira parte um pouco mais calma com uma guitarra, alguns efeitos e vocais, explodindo em sons na segunda parte com a inclusão de uma bateria, baixo e um saxofone eletrônico. Atenção para as baterias no segundo refrão.

07 21 M♢♢N WATER// “The math ahead/The math behind it/It’s moon water”

Começando com um minuto de um instrumental atmosférico, bem calmo, com vozes sobrepostas, a voz de Justin Vernon em um autotune fala das matemáticas da vida ( círculos infinitos, conjuntos binários, idades místicas) e os caminhos a serem seguidos. “Moon Water” consegue unir tanto o racional quanto o mundo das superstições com a matemática e água da lua em conexão. Talvez a faixa em que é mais fácil perceber esta essência dual conectada do álbum.

08 8 (circle)// “To walk aside your favor, I’m an Astuary King”

O número 8 também pode ser visto como o símbolo do infinito,8 é uma ótima balada que cresce até um refrão com várias vozes e a presença esperta do saxofone eletrônico. Quanto às letras, Bon Iver fica bem sentimental ao falar de um final de relacionamento, tentando entender o que aconteceu e o quanto está disposto a ajudar sua amada. Não sei porque mas esta canção me lembra um pouco Lenny Kravitz.

09 ____45_____// “I been caught in fire/I stayed down the other night”

Começando com o saxofone e vocal, a canção cresce no refrão com mais elementos eletrônicos e também com camadas de vozes. O fogo está bem presente nas letras da canção e uma interpretação possível pode ser o fato de Justin Vernon sofrer depressão no período antes de lançar o álbum. Preso e esculpido no fogo (caught and carved in fire) pode ser uma metáfora para ataques de pânico. Outra linha de interpretação se dá pelo instrumental: na canção usaram um instrumento que só pode ser tocado com duas pessoas, uma metáfora de conversa e também binariedade- que está bem presente no álbum.

10 00000 Million//“I worried bout rain and I worried bout lightning/But I watched them off, to the light of the morning”

A balada que fecha o álbum é um pouco mais calma e foca mais na mensagem das letras. Com piano e vozes sobrepostas, a música ganha mais atenção pela belíssima interpretação de Vernon e sua confissão mais uma vez em relação à suas inseguranças e preocupações de não controlar a vida e todas as dores que os obstáculos podem trazer. Há um senso de aceitação tanto dos números e tempos (“The days have no numbers”/ “os dias não tem números”) e de aceitar o que o destino traz e lidar, talvez, da melhor maneira possível (“it harms me, I’ll let it in”/”Isto me machuca/ deixarei fazer parte de mim”). Música tocante com uma conclusão interessante.

É bem notável a diferença entre Bon Iver, Bon Iver e 22, A Million- sendo os primeiros trabalhos da banda mais voltados ao folk, com um extremo cuidado com a qualidade do instrumental das canções, das letras cheias de metáforas  e da interpretação de Justin Vernon;tudo isto não desaparece, pelo ao contrário- se intensificou. As letras de  22, A Million trabalham com alguns conceitos de números  (a binariedade, 22; o infinito, onde a million pode de certo modo ser incluído, círculos e até as simbologias de números, ex.666) e conceitos humanos traduzidas pelas letras não tão diretas de Vernon (como sempre, ele permanece falando mais nas entrelinhas, deixando a interpretação por conta do ouvinte) que retratam fatos corriqueiros mas de grande ênfase para nossas vidas. Algumas das canções foram fortemente influenciadas por uma viagem que Vernon fez às Ilhas Gregas, quando teve alguns ataques de pânico e sofreu depressão por estar sozinho naquele lugar ( a canção que abre o disco é a mais evidente sobre o fato, embora há alguns resquícios entre outras canções).

A sonoridade foi a maior mudança drástica. Bon Iver flerta fortemente com eletrônica, mais ou menos do jeito que Sufjan Stevens fez em 2010  com The Age of Adz. Com uso de samples de canções com as vozes distorcidas, vozes sobrepostas, texturas sonoras- Vernon ainda consegue em algumas canções acalmar e manter seu folk em uma outra roupagem, com grande carga sentimental e com grandes mensagens. Uma das marcas deste álbum também é o saxofone, vindo de um sintetizador, que fecha algumas canções e aparecem em momentos mais intensos do álbum. 22, Million traz também a bagagem que Vernon teve ao trabalhar com James Blake, Kanye West e em seu projeto paralelo- ao usar eletrônica, Bon Iver usa só mais um instrumento para retratar um universo complexo de relacionamentos e sentimentos, traduzidos ora por números e matemática e ora por referências culturais como a Bíblia, a cultura pop- representada pelos samples, misticidade e símbolos. 22, Million não é um álbum fácil e pode causar alguma estranheza a princípio, principalmente para aqueles acostumados com o folk, mas Bon Iver ainda traz beleza, ainda mais pelas interpretações e sensações sonoras. 22, A Million traz toda a complexidade humana, e nem por isso, deve ser simples.