Bat For Lashes- The Bride

Artista: Bat For Lashes
Álbum: The Bride
Gravadora: The Echo Label
Lançamento: Julho/ 2016

A inglesa Natasha Khan sempre soube retratar bem o seu mundo, seja ele em música ou em imagens com seus video-clipes, a cantora sempre nos contou várias histórias fascinantes em seu projeto Bat For Lashes. O primeiro álbum de Bat For Lashes, Fur and Gold (2006), nos ofereceu este primeiro contato com o universo de Khan: um álbum com magos, cavalos e brilhos em metáforas de seus sentimentos e personalidade, junto com um a sonoridade crua, com várias influências folks em percussão- o que deu um baita destaque para a cantora novata e a levou a uma nomeação ao Mercury Prize, juntando tanto o universo místico traduzido tão sabiamente com sons. Em Two Suns (2009), exploramos mais a vida e a psique de Khan: a história agora gira em torno também das dualidades  e somos apresentados ao seu alter ego Pearl, que contrapõe tanto na aparência (Loira poderosa) e na personalidade (auto-destrutiva e cheia de sí) com o jeitinho meigo, carismático e mítico de Natasha Khan; mais eletrônico, mas sem deixar as batidas folk e o tom dark e mágico. Já em The Haunted Man (2012), Natasha tenta se encontrar por meio de figuras femininas(muitas vindas de filmes ou da vida de Khan) depois de um bloqueio de inspiração, e ainda experimentando com sons levando seu som a uma sofisticação maior. Natasha também experimentou com o projeto Sexwitch, onde cantava canções de outros países em intensas emoções explorando muita cultura.

Felizmente, parece que o bloqueio de Khan passou e finalmente a contadora de história Bat For Lashes está de volta para narrar uma história triste. The Bride é o novo álbum da cantora e conta a história de uma garota que vê o seu noivo morrer em um acidente de carro ao chegar à igreja- mas segundo Khan, o álbum não só explica a fatalidade, mas também foca em como a noiva superou o acontecimento e tornou em uma jornada de auto- conhecimento. A história teve origem em um desenho em que Khan produziu ano passado com uma noiva no topo de uma montanha e um carro em chamas- logo depois- ela chamou o fotógrafo Neil Krug para colaborar com o visual do projeto que ganhou um curta e até um capítulo inicial. Já as canções foram gravadas em seis semanas em uma casa em Ohayo Mountain, Woodstock- incluindo produtor Simone Felice. Pois então, também entramos nesta jornada e  fizemos a resenha faixa a faixa de The Bride:

Bat-for-lashes- the bride

1 I Do// “When you say I do”

Nada como começar o album com o convite de casamento e com a proposta de casamento e todas as promessas que esperam. A canção é simples com um som angelical de seu vocal e de harpa mas com um peso quando canta “I do”. Tudo muito lindo, mas tem um indício de algo trágico no caminho.

2 Joe’s Dream (Don’t Say Goodbye)//“(Don’t say goodbye)/I’m falling like a star from above /(Don’t say goodbye)”

A primeira canção com os indícios de que o pode casamento  não suceder- com letras de que o noivo sabia que uma tragédia estava prestes a acontecer com algumas coisas estranhas que presenciou (anjos no quarto, um corpo no chão, Deus procurando uma luz)- a agonia e desespero também é passado ao ouvinte com uma balada doce, mas com um um instrumental espaçado e efeitos que tornam a música mais tensa. No final o instrumental ganha mais piano e a batida acelera um pouco dando um final mais intenso. Dá pra começar a chorar aqui.

3 In God’s House//“In God’s house I do wait/For my love on our wedding day”

Esta é a canção que mostra como o acidente aconteceu, embora as letras podem também ser interpretada como se A noiva tivesse uma visão do acidente (What’s this I see?
Fire). A agonia de esperar o noivo chegar e a emoção da noiva confirmação da morte na última estrofe são traduzidas na canção: a batida eletrônica intensa, programações no refrão, assim como o órgão e a voz de Khan, que passa toda a emoção e desespero- especialmente no último “Fire” da canção.

4 Honeymooning Alone//“Driving my car alone (honeymooning alone)”

Começando com um barulho de carro batendo e com um solo de guitarra acompanhando, “Honeymooning alone” é uma balada onde a noiva lamenta o seu destino e “ser a garota que sempre foi negada” ao dirigir sozinha para sua lua-de-mel. A canção tem instrumentos espaçados e lembra um pouco o glamour, como uma Lana Del Ray ao jeito de Bat For Lashes.

5 Sunday Love//“I see her in every place I go/Sunday love is so cold”

Uma das canções mais agitadas do álbum, “Sunday Love” começa com uma ótima batida eletrônica e com os mesmos sons delicados de “I Do” no refrão- e com melodia que lembra às vezes a canção “Daniel”. As letras são um pouco confusas: a noiva parece se desprender de si mesma e se analisar- querendo um “Amor de Domingo” (o que pode ser uma analogia ao amor de casamento) e a imagem de sua história perseguindo a noiva.

6 Never Forgive The Angels//“And I will never forgive the angels”

Mais uma balada de voz, com belos backing vocals em acompanhada por uma guitarra que dá um tom de pesar, ainda mais com a intensificação do som pro final da canção. Na letra da canção conhecemos o pensamento da noiva, de inconformismo, e como é melhor pensar que ele está na estrada.Melancólica e dark, mostra bem o processo de dor da noiva.

7 Close Encounters//“Some say my lover is a pale green light/He hovers high when the moon shines bright”

“Close Enconters” tem uma atmosfera sobrenatural com arranjo de cordas e um coro para o final da canção. As letras casam bem com a melodia, e contam a probabilidade do noivo estar em outra dimensão e da noiva poder visitá-lo. A declaração de amor no refrão também é algo tocante na canção, o que se intensifica com o coral, e com as batidas que “imitam” a batida de coração. Tudo indica que ela consegue ter contato com o noivo, e a faixa se torna uma das mais cinematográficas do álbum.

8 Widow’s Peak//”You’re my blood, you’re my wine/You’re my mountain to climb/ Say you’re mine, you’re mine, you’re mine”

Com sons de tempestade no background com sons que parecem indiano, a noiva faz um monólogo de como se sente, a vontade de se juntar a seu amado- o desespero e a não conformidade, a confusão- o sentimento de estar perdida na vida e na realidade. A noiva é também uma viúva e seu desabafo é um pouco amedrontador.

9 Land’s End//”To Land’s eeeeeeeeend oh oh”

Com um tom mais suave, com uma guitarra e um belíssimo arranjo de cordas no final da canção a noiva descreve sua jornada de volta, o procurando em nuvens e tornados e em sábios e bruxas. Tom sereno mostra que a garota está se recuperando da tempestade e do “inverno”.

10 If I Knew//“Baby if I knew what I know now/ I would never turn it back around”

Introduzido com um piano, começa uma melodia doce e sincera- “If I Knew” é a canção da redenção, com belos backing vocals, e uma bela interpretação para encerrar a canção. A noiva aprecia e agradece a presença do moço na vida dela. Metáfora de montanhas, montanhas que refletem o sol. Uma das canções mais lindas e tocantes do álbum.

11 I Will Love Again//” ‘Cause I will turn it back around/ I’ll be homeward bound “

Com um ótimo baixo abrindo a canção, a noiva finalmente  consegue enxergar uma luz no fim do túnel, sabendo que pode demorar um pouco para se recuperar. A canção tem um tom mais pesado com batidas espaçadas e com um instrumental do meio pro final da canção. Atenção pelo belo vocal partilhado.

12 In Your Bed// “Let’s lay in your bed and dream together/In a world of our minds/ Just spending time in your bed”

Mais uma singela e linda canção, a noiva narra como ficou sua rotina após a tragédia: sem vontade de sair, e ainda sentindo saudades. O arranjo da canção com guitarras em poucas notas, palmas e a voz de Natasha com uma ótima interpretação. Há uma incógnita em “Little Annie” na segunda estrofe- seria ela a filha do casal? E ainda é possível ver a presença do noivo em pequenos aspectos da natureza…

13 Clouds//“Clouds/rushed through your eyes/Clouds, black and white”

Em uma delicada canção, Natasha canta em uma voz aguda, como se rezasse para seu seu amado, mas momentos de tensão aparecem logo pro final da faixa, coincidindo com a chuva divina que cai do céu. A noiva pode ter se encontrado, mas o noivo será alguém que se lembrará pelo resto da vida.

 

O principal ponto de The Bride não é o acidente do noivo em si, mas sim a jornada que a noiva tem durante este período pós-tragédia- o que pode ser observado bem na progressão das faixas: o convite de casamento (“I Do”), o sonho premonitório (“Joe’s Dream”), a confirmação do acidente (“In God’s House”), o começo da jornada (“Honeymooning Alone”), a confusão (“Widow’s Peak”), a maturidade ( “Land’s End), e o perdão (“If I Knew”, “I Will Love Again”). Esta jornada mostra que, segundo Natasha Khan, a maior jornada da vida é aceitar que estamos sozinho, e que cada jornada é única. A noiva percebe e depois aceita o fato que estará sozinha, mas ainda se lembra do noivo em alguns momentos de sua vida, especialmente aqueles relacionado com a natureza (pássaros, nuvens, vento).

A sonoridade do ábum também muda bastante- do delicado “I Do” com nuances bem amedrontadoras e “Never Forgive the Angels”, os arranjos melancólicos e dark em “Joe’s Dream”, “In God’s House”; um pouco de cordas e atmosfera sobrenatural em “Sunday Love” e “Close Encounters”. Até o monólogo intenso de “Widow’s Peak”, o álbum é cercado de emoções e confusão da noiva, tentando se situar na vida- até que a serenidade e aceitação também traduzem-se na melodia que se torna mais serena, com pianos e arranjos de cordas.

The Bride é definitivamente mais uma prova de como Bat For Lashes pode ser versátil, Natasha Khan consegue contar a história da noiva e realmente mostrar ao ouvinte o universo e conflitos da personagem não só pelas palavras mas também como os sons. O álbum é conceitual, com momentos bonitos na parte da redenção da noiva, e conflitantes- mas para quem está esperando Hits, The Bride traz somente algumas canções, sendo a mais radiofônica “Sunday Love”. Neste caso, a jornada vale muito mais do que um simples capítulo, e The Bride nos mostra  quanto o destino, às vezes,  nos mostra na pior das hipóteses o que é nosso período no planeta Terra.