Baleia- Atlas

Artista: Baleia
Álbum: Atlas
Gravadora: Sony Music
Lançamento:Março/ 2016

Baleia é uma daquelas bandas que você encontra por acaso, no meu caso, os encontrei nas redes sociais sendo uma daquelas bandas que te seguem para divulgar o som. A banda já era um pouco conhecida por ter Maria Luiza Jobim ( filha da lenda musical Tom Jobim) na formação original e de algumas parcerias com Cícero em shows. Com o disco Quebra-Azul (2013) disponível de graça no Soundcloud, a banda consagrou a formação e o som da banda misturando um pouco de MPB e folk em ótimas melodias e letras inteligentes.

Porém, sempre tem o segundo álbum, um desafio que a banda abraçou e realmente superou com temas mais profundos e atmosfera mais pesada sem deixar o primor na parte melódica e aprofundando muito mais nas letras da canção. A banda já estava prevendo este clima pesado pelo instrumental com mais guitarras e instrumentos de sopro e assim, nós adentramos ao mundo de Baleia nesta segunda era e fizemos a análise das 8 e intensas faixas de Atlas para analisá-las faixa a faixa.

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1.Hiato// “Num hiato/ Num sussurro a mais/Posso ouvir que….”

Denso, “Hiato”começa sussurrando para chegar em  baterias frenéticas acompanhado de instrumentos densos e pesados.Os versos são cantados com uma melodia mais calma com a alternância dos vocais de Sofia e Gabriel Vaz e há  uma distorção de instrumentos que fecha a música de jeito sensacional. As guitarras lembram um poco St Vincent, mas a essência baleia está presente tanto nos vocais como nas batidas.

2.Duplo- Andantes// “Eu vi o dono do sol/Ele só sabe dormir /Eu vi o dono do tempo ansiando tudo agora”

Com mais ginga em um solo matemático, a canção começa cheia de surpresas melódicas com texturas de vozes e instrumentos se sobressaindo, ora mais denso ora mais sereno com um violão bom. As letras são cheias de metáforas, mas o tema de destruição (um terremoto?) e morte estão presentes.

3. Triz (Ida)// “Um bilhão de cordões umbilicais que se entrelaçam/ E depois, me enforcam”

Com abertura dramática, com arranjos de cordas bem intensas e sensacionais, e uma ótima interpretação da canção, “Triz” tem letras sobre liberdade e suas consequências, em metáforas fortes ( cordões umbilicais que enforcam) a canção  é mais espaçada, se arrasta para prestarmos atenção nas letras e da meais ênfase na atmosfera pesada (vide os acordes de piano finais)

4.Volta// “Acordei fora da terra/ Eu vou orbitar, sem lugar, vou girar”

O primeiro single de Atlas é tenso: ao abordar a morte como tema das letras, o instrumental também segue a linha pesada com belos tambores, e violinos dando uma dramaticidade para a faixa. A letra cheia de metáforas é uma sensível e forte poesia da passagem para a morte, acompanhada por como a canção foi interpretada. Um dos pontos altos da banda e do álbum.

5.Estrangeiro// “Cidade em mim/Quer acordar/Guardo um dilúvio/No meu pulmão

“Estrangeiro” é o segundo single que começa eufórico com uma melodia cantada com acompanhamento de violinos, até desembocar nos versos acompanhados por um violão raivoso. O ponto alto fica nas texturas e confusão do refrão, como se o estrangeiro se perdesse e entendesse a cidade em que está. Com as letras é possível ver o encanto em que o estrangeiro passa até a cidade atravessá-lo. assim como a melodia recria a claustrofobia e serenidade da cidade…pra mim, parece um pouco SP.

6.Língua// “Só me sou nessas palavras/Não escapo num discurso”

Mais uma canção de atmosfera pesada e ótimos arranjos de cordas, mas desta vez com vocais liderados por Gabriel Vaz e como tema a impossibilidade em falar, tratada de forma dramática em várias metáforas e mostrando o quanto isto não é benéfico para quem está falando. O final com grilos dá um toque especial.

7.Véspera// “E vamos nos perder nos braços de milhões”

Como se fosse uma extensão da música anterior, Gabriel Vaz continua a cantar em “Véspera” acompanhado de um violão com ótimo dedilhado e sons da natureza e arranjo de cordas. A canção cresce lá pro final da canção com muito mais intensidade

8. Salto// “De mim a você vive um monstro infeliz/O seu delírio é sussurrar/ Diz palavras glaciais”

Com um arranjo que parece que a canção está tocando de trás para frente, a agitada “Salto” também recebe novos elementos durante a canção mudando texturas, mas sempre mantendo o ritmo vivo, dando a trilha sonora para letras que falam sobre machucar alguém com palavras ásperas.

É inegável que Baleia realmente tentou novos horizontes e buscou  inovação do som em Atlas, e realmente todo o esforço não foi em vão: Atlas  é denso, não só pelos temas que envolvem morte, luta pela liberdade e o drama que encontramos no cotidiano em nossos relacionamentos mas também no lado melódico, onde houve um esmero em usar combinações de instrumentos criando uma atmosfera super densa e pesada, mas cheia de encanto e surpresas. É possível ver influência de bandas como St Vincent (guitarras destorcidas em Hiato) e Foals (solos matemáticos em “Duplo-Andantes”) e Radiohead (estrutura de como as canções foram feitas) nas canções mas é incrível como a essência da banda predomina, tanto pelas melodias quanto pelo vocal mesclado dos irmãos Vaz.

É obvia também a evolução da banda, que conseguiu fazer um álbum diferente do álbum anterior, mesclando os ritmos já trabalhados como folk e pop, mas mesclando esta nuance mais dark e cheia de peso. Os vocais arrastados e os variados instrumentos que aparecem em momentos decisivos em vários momentos de todas as músicas, mostram a destreza da música em elaborar ótimos instrumentais, dando ao ouvinte uma ótima experiência sonora. Quanto às letras, estas não tão acessíveis por conta das metáforas e  imagens que as palavras nos oferece,, apesar que algumas canções ( as de trabalho) são bem claras e conseguem conectar bem tanto o instrumental quanto as rimas – “Volta” é arrepiante traz uma ótima ótica da passagem da vida/morte, “Estrangeiro” fala sobre a experiência de um estrangeiro na cidade e “Língua” estabelece bem o não falar com ótimas metáforas. Atlas é um ótimo álbum e uma ótima surpresa pro cenário musical brasileiro, mostrando que, sim, temos bandas que podem e tem capacidade de fazer algo orgânico e complexo.

 

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