Cidades Musicais: Pedra-Relógio (São João Nepomuceno)

Pedra Relógio é talvez uma das melhores bandas de rock escondidas pelo Brasil. Nativos de São João Nepomuceno, em Minas Gerais, a banda nos conta um pouco de como a cidade influencia o som que fazem, aquele rock que o Brasil vem precisando há um tempo. Confira o terceiro capítulo de Cidades Musicais:

1. Qual é o seu relacionamento com a cidade? O que você gosta e odeia nela?

Marcelo: Na minha visão,  São João Nepomuceno tem uma energia que alterna entre serenidade e solidão e todas as ramificações que esses dois sentimentos trazem à consciência. É um ótimo lugar para se trabalhar com clareza, para visualizar o ponto onde a gente deseja levar nosso trampo (é uma cidade extremamente criativa com movimentos de teatro e música, e que tradicionalmente criou várias gerações de grandes músicos em encontros na principal praça da cidade), mas que também podem passar semanas beirando o marasmo e à sensação de que nada mais irá acontecer na vida. São dois lados da mesma moeda e que pertencem à aura da nossa cidade.

2. Como a cidade que você vive é diferente das outras? O que há de especial nela?

M: O fato mais incrível, e que na minha visão demonstra o quanto nossa cidade é especial, é que essa sensação de tédio fez jovens de várias gerações da cidade reagirem da mesma maneira durante os fins de semana e à programas noturnos na cidade; de fazer encontros na praça com violão e bebidas, de se juntar na casa de algum amigo em comum para ouvir música. E assim sem perceber, e sem ter uma intenção direta, acabar criando uma comunidade artística e principalmente musical que influenciou diretamente no som da Pedra Relógio e outros grupos da cidade. A Pedra Relógio teve seu início há quatro anos atrás, mas a concepção da banda vem desde quando tínhamos 14, 15 anos e fugíamos para casa dos nossos amigos para beber, fumar e virar a noite ouvindo música e trocando ideias do que gostávamos e do que não gostávamos em bandas. Sem essas experiências, referências e trocas de conteúdo, tenho certeza de que jamais iríamos dar o passo de criar uma banda e depois de nos esforçarmos ao máximo para melhorarmos como músicos para pensarmos no nosso grupo com uma visão artística.

3. A cidade ajuda a dar inspiração para escrever? Se sim, que músicas foram inspiradas em cidades?

M: A cidade em si não me causa inspiração para compor, mas a energia da cidade refletida no nosso cotidiano já foi tema abordado em algumas canções do nosso primeiro EP (Parasitas) e do nosso novo álbum Tudo O Que Vem à Cabeça. Como uma rotina massacrante por estar preso à um emprego que você odeia e se enxergar num loop diário (‘Escute’, ‘Surfe Maldito’, ‘O Ouro e o Tolo’, ‘Todo dia’), nostalgia de momentos vividos com sua namorada (‘Pensando Demais’, ‘Ciranda’, ‘As Longas Horas da Tarde’) em bares e esquinas… São João Nepomuceno é uma cidade que me faz sonhar acordado durante algumas tardes e que me encontro nessas nostalgias que me levam a escrever.

“O ouro e o Tolo”- Pedra Relógio

4. Alguma canção lembra uma cidade da qual você viveu? Como você se sente?

M: “Para Lennon e McCartney”,do Clube da Esquina, é uma canção que carrega na letra o espírito que eu e muitos dos meus amigos levam no peito diariamente em São João Nepomuceno. De saber o quão distante fisicamente estamos de onde “tudo está acontecendo”, mas o que hoje é regional, um dia será do mundo (e já é, senão eu e você nem estaríamos nessa conversa haha) e ser daqui já é especial por si só. “Nada Será Como Antes”, também do Clube da Esquina, é outra canção marcante pela nostalgia de reencontrar meus amigos pelas ruas da cidade e saber que as coisas estão em constante mudança mas “é bom saber o que está acontecendo com você”. É como se a cidade estivesse me lembrando de quem somos para aceitar para onde vamos. Eu gosto desse sentimento, me faz me sentir vivo!

“Para Lennon e McCartney”

5. Você acha possível conseguir fazer uma música que ressoe a todos e pela música a pessoa entender sentimentos e até um pouco do lugar que você vive?

M: Acredito que seja totalmente possível fazer uma música que deixe a energia da cidade pela letra, pelos acordes, ritmo e arranjos. Acho que musicalmente isso vem de forma inconsciente. Associando a um vídeo, ou a uma imagem, que possa traduzir visualmente o que tudo na música quer dizer, você facilita para uma pessoa não envolvida diariamente com música entender essa marca que a cidade deixa. Mas agora a pouco, enquanto alterno entre te responder e tomar um café, começou a rolar aqui “Disorder” do Joy Division, que é uma música que sempre me dá vontade de caminhar por Manchester e apreciar a vista. Nunca foi um sonho de criança mas essa música desperta esse sentimento em mim todas as vezes em que a ouço!

“Disorder”-Joy Division

Pergunta final: Qual é a sua música favorita que fala de sua cidade e que lugar você recomendaria para um turista?

M: Honestamente, não tenho uma música específica que fale sobre São João Nepomuceno como favorita. A maioria das músicas que falam sobre nossa cidade pertencem a um gênero que não tenho ligação, que é a de viola caipira e música mineira com veia rural. São belas canções, mas não seria sincero dizer que as vejo como favoritas. No meu gosto, essa música está para ser composta ainda.


Um lugar da cidade para visitar seria o ‘Bar do Marquinho’, na praça ‘Coronel José Brás’! Você vai encontrar as pessoas mais interessantes e divertidas da cidade nesse lugar, que vão te fazer entender tudo o que escrevi acima. Também aconselharia durante a tarde viajar uns 20 km daqui e subir a ‘Pedra do Relógio’ para entender o porque esse lugar deu nome à nossa banda. Mas depois das 23h, dentro de São João Nepomuceno, sem dúvida, Bar do Marquinho!

 

 

Conheça um pouco mais do som da banda Pedra Relógio: