Cidades Musicais: Lucas Marques (Rio De Janeiro)

Lucas Marques foi uma das nossas descobertas da semana e faz um som com um misto de folk, MPB e rock com muitos bons riffs de guitarra. Um dos representantes da pluralidade de sons do Rio de Janeiro, Lucas Marques traz então seu relacionamento com a cidade e o quanto isso influencia na composição de suas músicas no primeiro capítulo de Cidades Musicais.

 

1. Qual é o seu relacionamento com a cidade? O que você gosta e odeia nela?

LM: Moro no Rio de Janeiro desde o dia em que nasci, e desde então vivo uma relação de amor e ódio com a cidade. Adoro a diversidade cultural e paisagística que o RJ tem. Você tá na praia e em questão de minutos já é possível chegar em bosques e trilhas, sem falar na diversidade cultural e a infinidade de programas à disposição quase todos os dias. Não importa seu gosto nem sua vibe, aqui você encontra o que quiser! Mas ao mesmo tempo que a diversidade atua para o bem, existe o lado ruim. O contraste da diversidade de classes por aqui é gritante! Enquanto uma madame almoça num restaurante caríssimo, do lado de fora tem morador de rua que não come há dias pedindo esmola, por exemplo, sem falar que a maior parte do RJ é formado por favelas e gente pobre, tráfico, violência policial e descaso do governo, mas isso é omitido para o mundo inteiro. O lado ruim da minha cidade é a violência, a pobreza e a forma como o pobre é discriminado e ignorado pelos ricos e autoridades.

2. Como a cidade que você vive é diferente das outras? O que há de especial nela?

LM: Acredito que na essência todas as cidades são iguais, pois em todo lugar existe uma concentração de pessoas tentando ser feliz e superando suas dificuldades todos os dias. Eu poderia escrever 30 linhas sobre o que tem de especial no RJ, mas se for pra escolher apenas uma opção, eu diria o pôr do Sol no Arpoador. 

3. A cidade ajuda a dar inspiração para escrever? Se sim, que músicas foram inspiradas em cidades?

LM: Total! Praticamente todas as minhas letras são escritas em ônibus, metrô ou mesas de bar pela cidade. “Monólogo de Bar”, por exemplo narra uma sexta-feira mal sucedida na Lapa. “Segunda-Feira” é inspirada na minha rotina semanal de ônibus lotado/trânsito/trabalho/patrão/contas atrasadas…assim como a vida de 99,9% dos brasileiros. Outono em Fevereiro foi escrita voltando de um bloco de Carnaval, observando a forma com que as pessoas se libertam depois de trabalhar o ano inteiro carregando o mundo nos ombros diariamente e por uma semana, se sentem livres para ser aquilo que realmente são e tentam preencher o vazio com festejos e excessos.


“Outono em Fevereiro”

4. Alguma canção lembra uma cidade da qual você viveu? Como você se sente?

LM:
“Zerovinteum” do Planet Hemp é um retrato fiel do lado ruim da cidade, que infelizmente fala muito mais alto e é muito mais constante que o lado bom. Incrível e irônico é que essa música foi lançada há mais de 20 anos e continua tudo exatamente igual…O Cristo Redentor vive de costas pra maior parte dos cariocas…

 

Planet Hemp – “Zerovinteum”

 

5. Você acha possível conseguir fazer uma música que ressoe a todos e pela música a pessoa entender sentimentos e até um pouco do lugar que você vive?

LM:
Totalmente possível! Acho que o maior e melhor exemplo disso seria Chico Science e Nação Zumbi. Cada música deles exala Recife, e a cada verso você se sente na cidade mesmo sem nunca ter visitado.

Pergunta final: Qual é a sua música favorita que fala de sua cidade e que lugar você recomendaria para um turista?

LM: MC Junior e MC Leonardo – Endereço dos Bailes! Clássico do Funk carioca, nostalgia total! A música já tem dezenas de recomendações com os melhores bailes e comunidades da cidade, haha! Minha recomendação seria um passeio pela Urca, pequeno bairro praiano à beira da Baía de Guanabara, que abriga também o Pão de Açúcar e a Praia Vermelha, que talvez seja meu lugar predileto no mundo. O clipe da música Marinheiro Só foi inteiro gravado na Urca!

 

MC Junior  e MC Leonardo – “Endereço dos Bailes”

 

 

Conheça mais do trabalho de Lucas Marques:

“Marinheiro Só”