Cidades Musicais: Arthur Nogueira (Belém e São Paulo)

Arthur Nogueira é uma das melhores pérolas da nossa MPB atual. O cantor que nasceu em Belém do Pará, mas escolheu São Paulo para viver nos conta então um pouco do relacionamento com as cidades e como os lugares dão inspirações para canções. Cheio de ricas referências, assim como a sua canção, confira a entrevista:

1. Qual é o seu relacionamento com a cidade? O que você gosta e odeia nela?

Belém é a cidade onde nasci, São Paulo é a cidade que escolhi. Hoje, tenho por elas um amor equivalente. Passei todas as minhas férias de infância na ilha de Mosqueiro, que fica a pouco mais de uma hora de Belém. Cresci assim, perto da natureza e sob um calor permanente. Em São Paulo, eu descobri o prazer da grande cidade, das diferentes estações. Ainda que passe a maior parte do tempo dentro de casa, quieto, gosto de saber que tudo está perto e à disposição. Gosto de saber que posso ter calor, mas depois posso ter frio, e assim por diante. Às vezes, não gosto da correria. Quando me me canso das falsas urgências da metrópole, corro para o silêncio da natureza. Só que por alguns dias. Adoro praia, adoro mato, respeito-os, mas gosto ainda mais de voltar para a minha casa na cidade.

2. Como a cidade que você vive é diferente das outras? O que há de especial nela?

Minha relação com São Paulo é tão forte porque a cidade me parece infinita. Há espaço para tudo, para todas as diferenças. Nesse sentido, concordo que ela é não só a maior, mas também, como diz Caetano, “a melhor cidade da América do Sul”. São Paulo nunca acaba e talvez o que haja de mais especial nela, usando uma expressão de um poema de Blaise Cendrars, seja exatamente seu “apetite furioso” (“cet appétit furieux”).

3. A cidade ajuda a dar inspiração para escrever? Se sim, que músicas foram inspiradas em cidades?

Eu costumo dizer que vivo para viajar. Todos os lugares em que já estive me inspiram de alguma maneira. Já citei alguns diretamente, outros estão implícitos. Meu disco “Rei Ninguém” termina com uma canção que é totalmente paulistana, ainda que não cite São Paulo nominalmente. Ela se chama “Pra nós”. Já meu disco “Sem Medo Nem Esperança” abre com uma canção que eu fiz logo que cheguei no Rio de Janeiro. Era um período de incertezas. Eu não sabia, por exemplo, se conseguiria me manter na cidade por muito tempo. Estava caminhando pela praia, vi uma turma praticando Slackline e achei que aquela era a imagem ideal para o que eu sentia. No mesmo dia, compus “Por um fio”. E lá se foram sete anos…

Pra Nós:

Sem Medo Nem Esperança:

 

4.Alguma canção lembra uma cidade na qual você viveu? Como você se sente?

Muitas. Eu amo João Gilberto, então cresci, por exemplo, ouvindo todas aquelas belas canções sobre o Rio de Janeiro. Eu ouvia e idealizava a cidade. Conheci primeiro o Rio das canções, depois o Rio de verdade, quando fui morar lá, em 2012. Fiz uma canção, chamada “Guamá”, que cita algumas cidades por onde passei. Eu sinto, como diz um verso da letra inspirado em Proust, que todos esses lugares são “heranças no edifício imenso da lembrança”.

Guamá:

5. Você acha possível conseguir fazer uma música que ressoe a todos e pela música a pessoa entender sentimentos e até um pouco do lugar que você vive?

Talvez. Muitas vezes, as pessoas vêm me contar sobre suas interpretações e sobre o efeito das canções sobre elas. E eu adoro ouvi-las. Como diz Clarice Lispector, “cada pessoa é um mundo”, então o barato é que existam diferentes visões sobre todas as coisas. No geral, a poesia não reproduz a realidade, mas inventa realidades.

Pergunta final: Qual é a sua música favorita que fala de sua cidade e que lugar você recomendaria para um turista?

Uma canção que sempre me emociona e dá saudade, quando estou fora de Belém, não fala diretamente sobre a cidade. Foi composta por dois paraenses, Nilson Chaves e Vital Lima, mas me remete a Belém bem mais pelas imagens que acende em minha memória do que pelo discurso em si. Ela se chama “Flor do Destino”. O mesmo acontece com “Trovoa”, do Maurício Pereira, que me enche os olhos de saudade de São Paulo. Em Belém, eu sempre recomendo um passeio de barco pelo rio Guamá, com direito a um almoço na ilha do Combu. Em São Paulo, é sempre muito bom caminhar. Escolher um ponto da cidade e a partir dali traçar sua rota, durante todo o dia, entre restaurantes, museus, cafés, livrarias…

Nilson Chaves-Flor Do Destino:

Maurício Pereira- “Trovoa”: